sábado, 18 de agosto de 2012

A ARROGÂNCIA DO EX-IMPÉRIO

Depois de uma cansativa semana de trabalho, estava eu lendo alguns blogs na rede, me preparando para escrever sobre a ameaça, por parte do governo britânico, aquele mesmo que deu asilo a Pinochet, contra a embaixada do Equador em Londres, quando me deparei com este belo artigo de Paulo Moreira Leite, que trata sobre o mesmo assunto. Apesar de trabalhar num órgão da mídia manipuladora, a revista Época, Paulo merece toda a nossa admiração, pois sempre trata os assuntos com o máximo possível de razão e imparcialidade. Segue o artigo, que pode ser lido também em http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/

LIBERDADES SELETIVAS


Pois é, meus amigos. Coube ao governo de Rafael Correa, apontado como inimigo da liberdade de imprensa, acusado de ser um candidato a ditador latino-americano, boliviariano de carteirinha, a primeira e até agora única iniciativa para defender os direitos de Julian Assange, o patrono do Wikileaks, responsável pelas mais importantes revelações sobre a diplomacia norte-americana desde a a liberação dos papéis do Pentágono, durante a Guerra do Vietnã.
Você sabe a história. Com auxílio de fontes militares, Assange divulgou pelos principais jornais do planeta um pacote de documentos internos do Departamento de Estado. Mostrou políticos locais bajulando embaixadores. Desmascarou demagogos e revelou pilantras sempre a postos a prestar favores a Washington, contrariando os interesses de seus países.
Graças a Assange, fomos informados de que a embaixada dos EUA em Tegucigalpa sempre soube que a queda de Manoel Zelaya, em 2009, foi um golpe de Estado – e não uma ação em defesa da democracia, como Washington passou a acreditar quando se constatou que seus aliados de sempre haviam se livrado de um adversário bolivariano para governar o país com os métodos reacionários de sempre.
Não é qualquer coisa, quando se sabe que, três anos mais tarde, outro elo fraco da democracia no continente – o Paraguai – seria derrubado num golpe instantâneo, desta vez com apoio de Washington desde o primeiro minuto.
As informações divulgadas por Assange não têm aquela função de entretenimento cotidiano, que alimenta a indústria de comunicação com sua carga regular de fofocas, escândalos, e vez por outra,  grandes reportagens – relevantes ou não.
Ele também não é uma Yaoni Sanchez, a dissidente cubana que faz oposição ao regime de Fidel Castro. Yaoni deveria ter todo o direito de trabalhar em paz, ninguém discute.
Num período de Murdoch na Inglaterra e jornalismo cachoeira no Brasil, Assange atua em outra esfera e assumiu relevância mundial.
Veicula informações de interesse público, confiáveis e fidedignas, que nos ajudam a entender como o mundo funciona nos bastidores da vida real e não nos coquetéis promovidos por empresas de relações públicas. Seu trabalho contribui, efetivamente, para elevar a consciência de nossa época. E é por isso que incomoda tanto. Pressionadas, até corporações financeiras gigantescas, como Visa e Master Cards, deixaram de receber as contribuições que sustentavam o Wikileaks.
Num mundo em que tantos pilantras e delinquentes se enrolam na bandeira da liberdade de expressão para aplicar golpes e divulgar mentiras, Assange recoloca em termos atuais o debate sobre sigilo da fonte. Defender o sigilo da fonte, muitas vezes, é apenas uma obrigação em nome de um direito maior, que envolve uma proteção universal.
A defesa da liberdade de imprensa, muitas vezes, é feita apesar da imprensa. APESAR de seus erros, apesar de seus desvios, não se pode aceitar  a censura e por isso defendemos o direito da imprensa errar. É essa situação que leva muitas pessoas a defender – com indignação risível – profissionais e veículos que cometem grandes barbaridades e veiculam delinquências em letras de forma só porque tem certeza da própria impunidade.
Julian Assange provocou escândalos porque não precisava ser tolerado nem defendido. Jamais publicou uma informação errada. Jamais pode ser acusado de falsificar um único dado. E, em nova ironia da história, o soldado  que é apontado como  sua fonte permanece preso, incomunicável, há quase 3 anos, num quartel dos Estados Unidos.
Com tais antecedentes, você não teria receio de ser raptado e levado sem julgamento para uma prisão nos EUA?
Estamos assim. Libera-se a fonte dos picaretas e malandros. Prende-se  a fonte do Wikileaks. Murdoch e seus empregados que espionavam famílias e cidadãos inocentes, corrompendo policiais para conseguir segredinhos e ganhar dinheiro, tem direito a constituir advogado, comparecem a julgamento, se defendem. Já o Wikileaks é tratado na força bruta.
Há outra ironia, porém. Abrigado na representação do Equador em Londres, Assange precisa de um salvo conduto para deixar o país. O governo Cameron  se recusa a fornecer o documento. Conforme notícia dos jornais, até ameaça invadir a embaixada, o que seria, vamos combinar, um escândalo dentro de outro. Assim, o governo  que protegeu e alimentou tantos empregados de Rupert Murdoch e sua fábrica de mentiras, resolve jogar duro contra uma organização que até agora só publicou verdades indesmentíveis.
Tempos estranhos, não?

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

ESTAMOS DE VOLTA


            Todo aquele que escreve, pode fazê-lo pelos mais variados motivos. Há quem o faça comercialmente. Há quem o faça por dever profissional. Pode-se escrever por passatempo, para documentar um momento ou para informar os outros. No meu caso, não sei por que o faço. Será por vaidade? Ou será para buscar espaço? Será por achar que tenho algo importante para dizer? Talvez. Não sei. O que sei é que acho necessário fazer isso, nem que seja pra ficar em paz comigo mesmo.
            Foi partindo dessa premissa, que decidi reativar o blog, que estava parado desde abril, primeiro por falta de acesso meu à rede, e depois porque voltei a trabalhar, após dois anos praticamente parado, o que me tomou toda a concentração. Nesse meio tempo, no entanto, senti falta desse espaço. Percebi que precisava expor opiniões, defender e criticar ideias. E que escrever é uma boa maneira de colocar tudo pra fora. Percebi também que precisava fazer alguns ajustes, para melhorar o conteúdo do blog, a periodicidade das postagens, e o número de leitores:
1.      Para manter os textos de forma que não atrapalhe meu tempo de trabalho, será publicado, no mínimo, um texto de minha autoria por semana, mais especificamente nos sábados. Isso não quer dizer que não possam surgir outras eventuais postagens, ou postagens de outros autores. Significa que, com a menor tiragem, os textos serão maiores e mais bem trabalhados. E há assuntos de sobra para serem tratados, como o julgamento do mensalão ou o novo programa do Pedro Bial.
2.                                 O blog terá uma nova página, a ser produzida com o tempo, em que serão publicados textos longos, de muitas páginas, como minha monografia, e de outras pesquisas que estou fazendo, sobre teologia da libertação, intolerância religiosa, racismo e sexismo, aborto, história das Copas do Mundo e jornalismo na era Lula, entre outras coisas, como alguns romances que já estou preparando. Isso levará tempo, mas já adiantarei espaço para ler no blog.
3.                                  Estou também tentando aumentar o número de leitores. Esse é um ponto importante, porque são os leitores que fazem a dinâmica do negócio, principalmente os que comentam e, dentre estes, principalmente os que discordam. Esse blog pode funcionar sem leitores, e funcionará, como já vem fazendo, mas não tem a mesma graça. Se tiver de ser assim, no entanto, paciência! Já tentei Orkut e Twitter, mas acho que o Facebook é o melhor instrumento para publicizar o blog. Vou manter o meu (http://www.facebook.com/jorgeluiz.maiadefreitas.7) sempre atualizado e informado sobre novidades. Espero sinceramente que surta efeito. Se não, tentaremos outros caminhos no futuro.
4.      Alguns coisas mantêm-se, como as páginas “Você Sabia? Para Formadores de Opinião”, que tentarei rechear com mais informações, e “Música Imprescindível”. No último caso, será mantida a de abril (a ótima Jardim das Acácias, de Zé Ramalho), reestreando a partir de setembro.
No mais, os assuntos e as ideias são as mesmas. Agradeço àqueles que continuaram lendo o blog, mesmo parado, e aos meus distintos seis seguidores. E antecipo meus agradecimentos àqueles que vierem a visitá-lo e, principalmente, comentá-lo, nem que seja pra fazer críticas. Meu interesse é colaborar com os debates. Quem quiser colaborar também, o espaço está aberto. Até porque, aqui nada é censurado. Obrigado!
Estamos de volta!!! 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

DEMÓSTENES E A FATALIDADE CONSERVADORA


Por Paulo Moreira Leite:

Confesso que nada era tão previsível quanto o destino de Demóstenes Torres. Como até os petistas aprenderam com a própria pele, nada é tão enganoso nem tão pode ser tão autodestrutivo como o discurso moralista.
A experiência ensina que o moralismo é um texto falso, porque tem como base uma visão fantasiosa das sociedades humanas.
Considera que há pessoas de carater límpido e sem manchas de nenhuma espécie, incapazes de mentir, de fazer mal ao próximo, de ter segredos inconfessáveis e ambições que condenam em público mas cultivam na vida privada.
Como a vida real não é assim, cedo ou tarde os moralistas são desmentidos pelos fatos e desmascarados pelas próprias atitudes.
Claro que nem sempre é necessário um grampo da Polícia Federal para apanhar um falso moralista mas vamos combinar que, neste caso, estávamos diante de um profissional da categoria.
O que sobra?
Depende.  Apesar do mensalão,  o PT e Lula tinham onde pisar,  como um movimento contra  desigualdade, a favor dos direitos dos trabalhadores e dos mais humildes, pelo fortalecimento da ação social do Estado, pelo crescimento e pelo emprego.
O problema de seus adversários é mais profundo. Quando perdem a superfície moralista, não resta muita coisa. Por que?
Porque o conservadorismo, particularmente nos países menos desenvolvidos — ou emergentes, ou Brics, ou dependentes, ou semi-atrasados  – não tem uma perspectiva de melhoria de vida dos mais pobres e menos protegidos.

Lembra de 1989, quando os conservadores quiseram colocar uma fantasia moderna no senador Mário Covas? Deu o “choque de capitalismo” que acabou com sua projeção nacional.
O silêncio tucano sobre a sorte dos mais humildes é absoluto depois que o Plano Real derrubou a inflação.
Já o DEM de Demóstenes sequer foi capaz de abrir a boca nessas questões. Até porque, às vezes, um movimento mais brusco pode exibir um laço com o passado do regime militar que é preferível manter esquecido.
A perspectiva história do conservadorismo é diminuir o Estado. Quer tirá-lo da economia, se possível da educação e também da saúde. Concorda em privatizar até mesmo uma parte da segurança pública e é claro que sonha em transformar nossa sociedade de cabelos brancos num mercado cativo para a previdência privada.
Se isso é difícil mesmo nos países avançados, que assiste hoje ao doloross ajuste de contas da desregulamentação e do fim dos empregos produtivos, imagine no Brasil, este país onde o salário médio gira em trono de R$ 1500 mensais.
Saúde privada? Escola particular? Segurança privada?
Não tem como. Não tem renda suficiente e aquela que está aí continua difícil de distribuir na base da caridade.
Este é o problema. Após três derrotas nas eleições presidenciais, o conservadorismo brasileiro segue sem um programa para melhorar as condições de vida da maioria população.

Só lhe resta torcer contra. O discurso do moralista é um pega-ladrão permanente.
Imagine como seria difícil o mundo do moralista se não tivesse pecados alheios para denunciar.

Iria  oferecer o quê a quem tem frio, fome e sede?
Por essa razão o moralismo evita discutir, concretamente, medidas que possam contribuir para diminuir os abusos, desvios e irregularidades que marcam o cotidiano do Estado brasileiro.
Seu segredo é despolitizar a política, esconder o debate por trás de muita histeria.
Finge que não há um problema com uma legislação que transformou a campanha eleitoral numa corrida por verbas privadas — e o ato de governar numa prestação de contas pelos favores recebidos.
Dá a impressão de que não há uma preferência política pela manutenção do sistema que aí está, onde o poder econômico cria duas classes de eleitores, os privilegiados que compram influência com seu dinheiro, e o homem comum, indignado com a própria impotência.

Num sistema mais transparente, capaz de distribuir recursos à vista de todos, o moralista não tem o que fazer — nem o que dizer. Sequer poderia fingir que sente raiva para obter alguma identificação com os eleitores.
Este é o ponto. Condenados a pregar a moralidade, cedo ou tarde os moralistas acabam destruídos por ela. E não sobra nada. Nada. Nada mesmo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

BOB FERNANDES, DA GAZETA, COMENTA O CASO DEMÓSTENES: MAGISTRAL


DEMÓSTENES, MARCONI E POLICARPO


Editorial da revista Carta Capital:

O caso do senador Demóstenes Torres é representativo de uma crise moral que, a bem da sacrossanta verdade, transcende a política, envolve tendências, hábitos, tradições até, da sociedade nativa. No quadro, cabe à mídia um papel de extrema relevância. Qual é no momento seu transparente objetivo? Fazer com que o escândalo goiano fique circunscrito à figura do senador, o qual, aliás, prestimoso se imola ao se despedir do DEM. DEM, é de pasmar, de democratas.
Ora, ora. Por que a mídia silencia a respeito de um ponto importante das passagens conhecidas do relatório da Polícia Federal? Aludo ao relacionamento entre o bicheiro Cachoeira e o chefe da sucursal da revista Veja em Brasília, Policarpo Júnior. E por que com tanto atraso se refere ao envolvimento do governador Marconi Perillo? E por que se fecha em copas diante do sequestro sofrido por CartaCapital em Goiânia no dia da chegada às bancas da sua última edição? Lembrei-me dos tempos da ditadura em que a Veja dirigida por mim era apreendida pela PM.
A omissão da mídia nativa é um clássico, precipitado pela peculiar convicção de que fato não noticiado simplesmente não se deu. Não há somente algo de podre nas redações, mas também de tresloucado. Este aspecto patológico da atuação do jornalismo pátrio acentua-se na perspectiva de novas e candentes revelações contidas no relatório da PF. Para nos esclarecer, mais e mais, a respeito da influência de Cachoeira junto ao governo tucano de Goiás e da parceria entre o bicheiro e o jornalista Policarpo. E em geral a dilatar o alcance da investigação policial.
Quanto à jornalística, vale uma súbita, desagradável suspeita. Como se deu que os trechos do documento relativos às conversas entre Cachoeira e Policarpo tenham chegado à redação deVeja? Sim, a revista os publica, quem sabe apenas em parte, para demonstrar que o chefe da sucursal cumpria dignamente sua tarefa profissional. Ou seria missão? No entanto, à luz de um princípio ético elementar, o crédito conferido pelo jornalista às informações do criminoso configura, por si, a traição aos valores da profissão. Quanto à suspeita formulada no início deste parágrafo, ela se justifica plenamente: é simples supor vazamento originado nos próprios gabinetes da PF. E vamos assim de traição em traição.
A receita não a dispensa, a traição, antes a exige nas mais diversas tonalidades e sabores. A ser misturada, para a perfeição do guisado, com hipocrisia, prepotência, desfaçatez, demagogia, arrogância etc. etc. E a contribuição inestimável da mídia, empenhada em liquidar rapidamente o caso Demóstenes, para voltar, de mãos livres, à inesgotável tentativa de criar problemas para o governo. Os resultados são decepcionantes, permito-me observar. A popularidade da presidenta Dilma acaba de crescer de 72% para 77%.
E aqui constato haver quem tenha CartaCapital como praticante de um certo, ou incerto, “jornalismo ideológico”. Confesso, contristado, minha ignorância quanto ao exato significado da expressão. Se ideológico significa fidelidade canina à verdade factual, exercício desabrido do espírito crítico, fiscalização diuturna do poder onde quer que se manifeste, então a definição é correta. E é se significa que, no nosso entendimento, a liberdade é apanágio de poucos, pouquíssimos, se não houver igualdade. A qual, como sabemos, no Brasil por ora não passa de miragem.
E é se a prova for buscada na nossa convicção de que Adam Smith não imaginava, como fim último do capitalismo, fabricantes de dinheiro em lugar de produtores de bens e serviços. Ou buscada em outra convicção, a da irresponsabilidade secular da elite nativa, pródiga no desperdício sistemático do patrimônio Brasil e hoje admiravelmente representada por uma minoria privilegiada exibicionista, pretensiosa, ignorante, instalada no derradeiro degrau do provincianismo. Ou buscada no nosso apreço por toda iniciativa governista propícia à distribuição da renda e à realização de uma política exterior independente.
Sim, enxergamos no tucanato a última flor do udenismo velho de guerra e em Fernando Henrique Cardoso um mestre em hipocrisia. Quid demonstrandum est pela leitura do seu mais recente artigo domingueiro na página 2 do Estadão. O presidente da privataria tucana, comprador dos votos parlamentares para conseguir a reeleição e autor do maior engodo eleitoral da história do Brasil, afirma, com expressão de Catão, o censor, que se não houver reação, a corrupção ainda será “condição de governabilidade”.
Achamos demagógica e apressada a decisão de realizar a Copa no Brasil e tememos o fracasso da organização do evento, com efeitos negativos sobre o prestígio conquistado pelo País mundo afora nos últimos dez anos. Ah, sim, estivéssemos de volta ao passado, a 2002, 2006 e 2010, confirmaríamos nosso apoio às candidaturas de Lula e Dilma Rousseff. Se isso nos torna ideológicos, também o são os jornais que nos Estados Unidos apoiaram e apoiarão Obama, ou que na Itália se colocaram contra Silvio Berlusconi. Ou o Estadão, quando em 2006 deu seu voto a Geraldo Alckmin e em 2010 a José Serra.
Não acreditamos, positivamente, que de 1964 a 1985 o Brasil tenha sido entregue a uma “ditabranda”, muito pelo contrário, embora os ditadores, e seus verdugos e torturadores, tenham se excedido sem necessidade em violência, por terem de enfrentar uma resistência pífia e contarem com o apoio maciço da minoria privilegiada, ou seja, a dos marchadores da família, com Deus e pela liberdade. Hoje estamos impavidamente decepcionados com o comportamento de muitos que se apresentavam como esquerdistas e despencaram do lado oposto, enquanto gostaríamos que a chamada Comissão da Verdade atingisse suas últimas consequências.
Agora me pergunto como haveria de ser definido o jornalismo dos demais órgãos da mídia nativa, patrões, jagunços, sabujos e fâmulos, com algumas exceções, tanto mais notáveis porque raras. Ideologias são construídas pelas ideias. De verdade, alimentamos ideias opostas. Nós acreditamos que algum dia o Brasil será justo e feliz. Eles querem que nada mude, se possível que regrida.

domingo, 1 de abril de 2012

OPERAÇÃO BLINDAGEM: CHAMEM O REINALDO AZEVEDO


            Reinaldo Azevedo não cansa. Pois é, eu também não. Acho que algum dia escreverei um livro sobre ele. Servirá ao menos para mostrar o quão baixo podem ir alguns indivíduos na arte do achaque e do pseudo-jornalismo. Sei que não tenho nem uma ínfima parcela do número de seus leitores, mas é melhor está só do que mal acompanhado. E solidão não é desculpa para o silêncio. Então, mãos à obra!
            Tio Rei, como todos sabem, tem mestrado e doutorado no ramo de assassinar reputações. É uma de suas facetas. Basta contrariar seus interesses, ou o daqueles que lhe dão de comer, e se preparar para uma enxurrada de palavras venenosas. E sem nenhum direito à réplica, pois ele odeia debates. Tanto que nunca se viu (quem tiver visto me corrija) ele participando de uma discussão, de uma mesa redonda, com algum adversário ideológico. No seu blog, qualquer um destes é logo censurado. Ele só participa de eventos ou programas em que todos concordem com ele, ou pelo menos, não discordem tão descaradamente de seus argumentos rasos.
            Dessa vez, no entanto, a faceta mostrada pelo jornalista de Veja foi outra. Ele não foi o Tio Rei assassino de reputações, pelo menos não totalmente, mas o Tio Rei rábula. Rábula é aquele cara que advoga sem ter diploma de direito, que “embaraça as questões com os artifícios que a lei lhe faculta” (Dicionário Michaelis Online). Por ser um sujeito que se acha entendido de tudo, e que se julga mais conhecedor do direito que um ministro do Supremo, o adjetivo lhe cai perfeitamente. Seu cliente: Policarpo Júnior, chefe da sucursal da mesma revista Veja em Brasília, um dos flagrados pela Operação Monte Carlo, aquela que está deixando em polvorosa, pelo alto teor bombástico de suas denúncias, toda a direita nacional, principalmente os fãs, e Reinaldo o é de carteirinha, do quase ex-senador goiano Demóstenes Torres, aquele que até bem pouco tempo era um arauto da moralidade e que hoje é mais um exemplo, dadas as fortes evidências, de corrupção na política.
            Como todo rábula e, aliás, quase todos os advogados, Reinaldo não defende idéias nem princípios. Ele defende quem lhe paga e o faz, vale dizer, de forma magistral. Afinal, como um bom rábula, ele é também um bom sofista. A forma como as palavras fluem de seus dedos é quase que capaz de convencer de qualquer aberração, até o mais inteligente e bem informado leitor. Quase, pois todo sofista é traído por sua própria verborragia empolada, assim como por seu tratamento diferenciado para com inimigos e aliados. Por isso é importante conhecê-los a fundo, facilitando a quebra dos pés de barro dos seus fracos argumentos.
            Chegamos então àquilo que podemos chamar de “Operação Blindagem”. Azevedo se mostra pronto a mostrar suas garras afiadas. Ele não apresenta fatos consistentes para explicar o porquê de Policarpo ser citado várias vezes, e de forma comprometedora, com o notório contraventor Carlos Cachoeira. Como é de praxe, e para ser coerente com uma de suas facetas, sua saída é o ataque rasteiro, sem citações, evidências ou fundamentação factual:
“Há alguns dias, Policarpo Júnior, um dos redatores-chefes da VEJA e comandante da sucursal da revista em Brasília, vem sendo vítima de uma campanha asquerosa, movida por bandidos. Seus acusadores são notórios ladrões de dinheiro público, escroques envolvidos com o submundo da espionagem — eles, sim, flagrados em investigações da Polícia Federal —, notórios mamadores das tetas do oficialismo. Não têm biografia, mas folha corrida. Estão associados ao submundo do crime para tentar melar o processo do mensalão. Trabalham a serviço de um notório chefe de quadrilha. Essa escória, no entanto, poderia estar falando a verdade, claro… Mas não está! E são as próprias gravações feitas pela Polícia Federal a prová-lo.”
Viram? Não há nada, só palavras de ódio desesperado. Quem são esses bandidos? Ele não diz. O que eles fizeram para ser chamados assim? Ele também não diz. Alguns poderiam achar que o “notório chefe de quadrilha” citado é José Dirceu, pois é assim que o jornalista sempre se refere a ele, tomando sempre o cuidado, claro, de pôr o adjetivo entre aspas, seguido de um “segundo o Procurador-Geral”, visto o fato de o ex-presidente do PT ser um acusado, e não um condenado. Afinal, todo réu, num sistema jurídico civilizado, deve possuir a presunção de inocência, e ninguém deve sair por aí, de forma irresponsável e leviana, condenando-o publicamente de forma sumária. Como o termo está sem aspas, e sem a referência ao Procurador-Geral, deve estar falando de outra pessoa. Ou seria o cúmulo do mau-caratismo.
            No final do parágrafo ele diz que as gravações provam a inocência de Policarpo. E ele cita um trecho pra comprovar sua tese:
“Cachoeira - O Policarpo, você conhece muito bem ele. Ele não faz favor pra ninguém e muito menos pra você. Não se iluda, não (…) Os grandes furos do Policarpo fomos nós que demos, rapaz (…) Ele não vai fazer nada procê.
Jairo - É, não, isso é verdade aí.
Cachoeira - Limpando esse Brasil, rapaz, fazendo um bem do caralho por Brasil, essa corrupção aí. Quantos já foram, rapaz!? E tudo via Policarpo. Agora, não é bom você falar isso com o Policarpo, não, sabe? Você tem que afastar dele e a barriga dele doer, sabe? Tem que ter a troca, ô Jairo. Nunca cobramos a troca.
Jairo - Isso é verdade.
Cachoeira - E fala pra ele (…) eu ganho algum centavo seu, Policarpo? Não ganho (…) Nós temos de ter jornalista na mão, ô Jairo! Nós temos que ter jornalista. O Policarpo nunca vai ser nosso…
Jairo - É, não tem não, não tem não. Ele não tem mesmo não. Ele é foda!”
É um trecho forte, confesso! Mas não deixa de ser um trecho, uma parte. Há muita coisa ignorada, que podem lançar novas luzes quanto à real ligação que existe entre Cachoeira e Policarpo. Vejamos o que segue:
“A parceria entre o jornalista Policarpo Junior, editor-chefe e diretor da sucursal da revista Veja em Brasília, e o contraventor Carlinhos Cachoeira é anterior e vai além dos 200 telefonemas entre eles, grampeados pela Polícia Federal, feitos no período de 2008 a 2010. Sob o título de Sujeira para Todo Lado, reportagem assinada por Policarpo em 3 de novembro de 2004, na edição 1.878, teve como efeito prático criar um clima político adverso à prisão de Carlos Cachoeira, cujo pedido neste sentido havia sido feito pela unanimidade dos 58 deputados estaduais do Rio de Janeiro. Eles aprovaram o relatório final da CPI da Loterj, mas a reportagem de Veja, feita com base em conversas gravadas por auxiliares de Cachoeira entre eles próprios e o então deputado federal pelo Rio de janeiro André Luiz, trata de cercar de suspeitas a atuação da própria Comissão. No texto se diz que Cachoeira só teve seu pedido de prisão requerido porque foi vítima de extorsão e se recusou a pagar R$ 4 milhões para sossegar os ânimos dos deputados estaduais. Uma vítima, portanto, e não um réu, como era o caso. (...)Mais forte que qualquer apuração, a tese da reportagem, como se diz no jargão interno de Veja, era a de que “o empresário de jogos Carlos Cachoeira”, como Policarpo o qualificava, era um empresário honesto envolvido num cerco de chantagens. E foi isso o que foi publicado. Sobre as acusações feitas contra Cachoeira na ocasião, nenhuma menção na referida reportagem. Veja teve o cuidado, ao contrário, de levar suas denúncias de tentativa de extorsão contra Cachoeira – cujas provas, repita-se, foram gravadas por auxiliares do mesmo Cachoeira – a reverberar na Câmara dos Deputados.”
            O Brasil 247, sítio onde colhi o trecho, e que cerrou fileiras em busca da verdade no caso Cachoeira, começou a sofrer safanões. Esta manhã Reinaldo começou a atacá-lo, novamente sem argumentos concretos, mas apenas com sofismas baratos. E não vai parar por aí. Amanhã a verborragia continuará a correr, no mesmo ritmo das novas denúncias. Eu, como não sou famoso, vou escapando das agressões. Quem quiser conferir, é só procurar o blog do jornalista. Afinal, a “Operação Blindagem”, não somente de Policarpo Júnior, mas da revista Veja como um todo, está apenas começando. 


quinta-feira, 29 de março de 2012

CASO POLICARPO-CACHOEIRA: SERÁ PIOR QUE MURDOCH?


do sítio Brasil 247:

Caso Policarpo-Cachoeira: será pior que Murdoch?Foto: Montagem/247

SILÊNCIO DE VEJA, QUE AINDA NÃO SE MANIFESTOU SOBRE AS DUZENTAS LIGAÇÕES GRAMPEADAS PELA POLÍCIA FEDERAL ENTRE O EDITOR-CHEFE POLICARPO JR. E O CONTRAVENTOR CARLINHOS CACHOEIRA, QUE ESTÁ PRESO, DESPERTA DÚVIDAS; O BRASIL ASSISTE A UM ESCÂNDALO DE TIPO SEMELHANTE AO QUE LEVOU AO FECHAMENTO DO THE NEWS OF THE WORLD, DE RUPERT MURDOCH? SERÁ POSSÍVEL ENCOBRI-LO?

247 – Relações incestuosas e, portanto, desvirtuadas entre jornalistas e fontes já causaram prisões e fecharam uma publicação secular. Na Inglaterra, ano passado. Diretora executiva da News Corp., o conglomerado de mídia do magnata Ruppert Murdoch, a jornalista Rebekah Brooks chegou a ser presa pela polícia inglesa, interrogada por 12 horas e libertada sob fiança somente após contar o que sabia a respeito do trabalho de apuração que incluía escutas ilegais sobre personalidades do país e aquisição de informações com policiais mediante pagamentos em dinheiro.
O jornal The News of the World, que veiculava o material obtido na maior parte das vezes por aqueles métodos, teve de ser fechado por Murdoch, depois de mais de cem anos de publicação, por força dos protestos dos leitores e do público em geral. Eles se sentiram ultrajados com o, digamos, jeitinho que a redação agia para obter seus furos. Os patrões Ruppert e seu filho James precisaram dar explicações formais ao Parlamento Britânico sobre as práticas obscuras. Ali, foram humilhados até mesmo por um banho de espuma a contragosto.
No Brasil, neste exato momento, a revista impressa de maior circulação do país está com seus métodos de apuração igualmente colocados em xeque. Afinal, o caso das duzentas ligações telefônicas grampeadas pela Polícia Federal, nas investigações da Operação Monte Carlo, envolve num circuito fechado, e privilegiado, um contraventor especializado em se infiltrar em grandes estruturas do establishment e o atual número dois da revista. O jornalista Policarpo Jr., que acumula o cargo de diretor da sucursal de Brasília, pode até ser visto como o número três ou quatro na hierarquia interna, à medida em que, em seu último arranjo de poder, o diretor de redação Eurípedes Alcântara estabeleceu o singular modelo de ter três editores-chefe na publicação. Mas com pelo menos quinze anos de serviços prestados à revista no coração do poder, Policarpo, reconhece-se, é “o cara”. Ele foi repórter especial e seu estilo agressivo de atuar influenciou a atual geração de profissionais de Veja. Eles são temidos por sua capacidade de levantar escândalos, promover julgamentos morais e decretar o destino de reputações. A revista, a cada semana, se coloca como uma espécie de certificadora da moral e dos bons costumes no País, sempre pronta a baixar a marreta sobre o que julga fora dos seus padrões.
O problema, para Veja, é que o jogo de mão entre Policarpo Jr. e Carlinhos Cachoeira pode ter sido pesado, apesar de ainda não estar claro. O silêncio da revista a respeito não contribui em nada para o seu esclarecimento. A aparente relação de intimidade pessoal entre editor-chefe e o contraventor não apenas não é um fato como outro qualquer, como pode ser a ponta do maior escândalo de mídia já visto no Brasil. A não publicação, na edição de Veja que está nas bancas, da surpreendente descoberta de ligações perigosas entre o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) – que na terça-feira 26, sob intensa pressão, renunciou ao posto de líder do partido no Senado – e Cachoeira acentuou a percepção generalizada de que o bicheiro e o jornalista tinham um ou alguns pactos de proteção e ajuda. Será?
O ex-governador José Serra, recentemente, foi apontado pelo ex-ministro em plena queda Wagner Rossi como um dos pauteiros (aquele que define os assuntos a serem abordados) de Veja. Pode ter sido um efeito de retórica do Rossi flagrado pela revista como dono de uma mansão incompatível com seu histórico de homem público. Mas jamais, como agora, houve a suspeita real de que um contraventor pudesse exercer o mesmo papel de, digamos, pauteiro externo da revista. A interrogação é procedente à medida em que, especialmente em Brasília, circulam rumores de que Policarpo comentaria abertamente com Cachoeira os assuntos que seriam abordados em edições futuras da revista e as angulações editoriais das reportagens.
Para qualquer um que trabalhe com informação, conhecer por antecipação o conteúdo de Veja é uma grande vantagem competitiva. Um assessor de imprensa, por exemplo. A posse desse tipo de ativo pode representar a diferença entre um bom contrato e nenhum contrato. Se se abre o espaço para a indicação de assuntos, então, ai o lobista entra no paraíso, passando a ter condições de posicionar seus interesses em espaços nobres que vão da capa à última folha do papel tipo bíblia de Veja, passando pela prestigiada sessão de entrevistas, as páginas amarelas. Será?
Na Inglaterra, em meio às primeiras informações sobre o real modo de agir dos jornalistas do The News of the World, a primeira reação da casa foi também a de silêncio. Em seguida, negativas. Mas os desdobramentos do caso, que incluíram o suicídio de um ex-alto funcionário do governo britânico, levantaram o véu da farsa e a verdade, finalmente, mostrou sua face. Na versão tupi, a suspeita é de que tenha ocorrido, entre Policarpo e Cachoeira, bem mais do que acontece num relacionamento normal entre jornalista e fonte de informação. Cachoeira, via Policarpo, talvez tenha se tornado um observador privilegiado da construção semanal da pauta política da revista, especialmente durante a eclosão do escândalo do mensalão, como afirmou ao 247 o ex-prefeito de Anápolis, Ernani de Paula.
Em nome de ter a notícia em primeira mão, é admissível, do ponto de vista ético, ao profissional da mídia manter relacionamentos privilegiados com quem ele considerar importante para este fim. Mas quase nunca é aceitável fazer com que esses relacionamentos derivem para a não publicação de notícias ou a divulgação parcial dos fatos.
Normalmente, o mundo político espera uma edição da revista Veja para conhecer o conteúdo que ela apresenta sobre os outros. Neste final de semana, o que se quer saber é o que Veja falará dela mesma.

A VERDADE SUFOCADA DO TORTURADOR USTRA

Colhido por mim no blog O Esquerdopata

quarta-feira, 28 de março de 2012

A VERGONHOSA VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇAS PALESTINAS


Por Paulo Moreira Leite:

Tempos atrás, fiz uma nota sobre os maus tratos sofridos por crianças palestinas que são presas pelas forças de segurança de Israel. É uma situação preocupante e vergonhosa, que, aos poucos, começa a se tornar debate internacional.
Não se trata de uma repressão destinada a impedir pequenos furtos e atos de violência. São medidas que visam punir adolescentes e crianças — o limite legal é 16 anos — que jogam pedras em soldados de Israel e também em colonos instalados, à revelia da lei internacional, na Cisjordânia, que é território palestino.
Minha primeira nota se baseava numa reportagem da correspondente do jornal inglês  Guardian, que conversou com crianças, advogados e famílias.
Agora, El País publica uma reportam sobre o assunto. Conforme o jornal, ”o tratamento que recebem os menores palestinos detidos pelas forças de segurança israelenses preocupa há tempos as chancelarias europeias e as organizações de defesa da infância. Preocupam-se de que os jovens sejam interrogados sem a presença de um advogado, que sejam encerrados em celas de isolamento e, sobretudo, que sofram maus-tratos.”
Segundo o jornal, a ONG Defense for Children International (DCI) compilou casos durante quatro anos. Numa investigação que tem apoio da União Européia, a DCI afirma que se encontrou um “padrão de abusos sistemáticos” e, pior ainda, “alguns casos de torturas praticadas em crianças encarceradas em centros militares”.
Todos os anos, diz a entidade, o exército israelense detém, interroga e encarcera entre 500 e 700 menores. Com base em 311 declarações juradas de menores palestinos detidos, 234 menores sofreram algum tipo de violência física durante ou depois da detenção; 57% dos detidos receberam ameaças e 12% foram encerrados em uma cela de isolamento.
Duas entidades israelenses, B’Tselem e Médicos pelos Direitos Humanos, costumam condenar o tratamento dado aos menores palestinos nos cárceres israelenses.
Mark Regev, porta-voz do governo israelense, afirma que, “quando as autoridades militares detêm menores, o fazem de acordo com os procedimentos específicos necessários”.
A lei militar considera menores apenas quem ainda não completou 16 anos de idade, o que significa que a partir daí mesmo quem ainda é considerado adolescente recebe o tratamento mais severo reservado a adultos — e não há mais um cuidado específico com sua situação. Os menores de 16 anos são tratados por tribunais especiais, cujo objetivo é adequar o tratamento às características do acusado.
Leia como El País descreve o padrão de trabalho das forças de segurança israelenses para capturar os menores: ”Costuma ocorrer durante a noite. Os blindados entram no povoado e tiram os menores de suas casas, algemados e com os olhos vendados. Levam-nos até um centro de detenção para interrogá-los, sem que possam acompanhá-los nenhum familiar e muitas vezes sem que haja um advogado presente durante o interrogatório.”
Conforme o DCI, “em quase um terço dos casos estudados, os menores são obrigados a assinar documentos em hebraico, que não compreendem. Em um prazo de oito dias, os menores comparecem, com correntes nos tornozelos, diante de um tribunal militar situado em Israel, em violação ao artigo 76 da quarta Convenção de Genebra, que proíbe tais transferências. É então que têm a oportunidade de ver pela primeira vez seus familiares, desde que estes consigam as permissões necessárias para entrar no país a tempo.”
Segundo o jornal, “cerca de dois terços dos menores detidos acabam em um presídio israelense, segundo dados da DCI. A organização explica que nos últimos anos, entretanto, houve uma melhora significativa no sistema penitenciário. Uma das novidades positivas que raramente as autoridades israelenses mantém menores e adultos em cárceres diferentes, o que antes ocorria com mais frequencia.

sábado, 24 de março de 2012

MAIS UMA DE MARCO ANTÔNIO VILLA


            Alguém aí deve se lembrar de Marco Antônio Villa. Já escrevi um post sobre ele (A FALTA DE PERSPECTIVA DA DIREITA, de 11 de janeiro último), que mostra a sua fraqueza intelectual e o seu partidarismo panfletário. Eis que procurando na rede, encontrei outra pérola do ilustre historiador. O tema agora é a resistência armada à Ditadura Militar, assunto que tratei em minha primeira postagem (GUERRILHA: A VIOLÊNCIA COMO UM MAL NECESSÁRIO, de 18 de dezembro de 2011).
            Apesar de alguns poucos (bem poucos mesmo) trechos lúcidos, o texto (http://hadrielf.blogspot.com.br/2011/11/luta-armada-contra-ditadura-por-marco.html) é mal fundamentado do início ao fim. Vou expor aqui seus principais erros (em negrito) e comentá-los um por um:
·         “Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). (...) Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da "ala autêntica", precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.” Não nego o papel dos outros tipos de resistência, como as do MDB, dos artistas, dos intelectuais e de alguns setores da imprensa. É o professor Villa quem pretende negar a legitimidade de quem pegou em armas. É fácil dizer, analisando a partir do presente, que deu errado. Mas na época não havia, para muita gente, outra saída, como já expliquei em meu primeiro post. Para alguns era melhor morrer do que se calar, ser cassado ou se exilar. E esse negócio de “espaço democrático” entre 1964 e 1968 é uma indesculpável desonestidade intelectual. Que o digam os parlamentares cassados e os presos torturados nesse período.
·         “Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime.” Já deixei claro: se aqueles que pegaram em armas tinham desprezo pela luta política, porque aderiram a ela após o fim da Ditadura? A verdade é que o que levou a esquerda às armas foi o seu alijamento (cassação do PCB em 1947) do processo político legal e a constatação de que na Ditadura, este processo sequer existia (fazer oposição de verdade, significava perda de mandato).
·         “O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva. (...) Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.” Aqui Villa faz duas constatações, meio contraditórias entre si. Primeiro, e de forma implícita, ele joga a culpa pelo endurecimento do regime na esquerda radical, aquela que pegou em armas, num argumento um tanto sórdido. Depois, e para tentar esconder que defende abertamente a Ditadura, ele desdiz a primeira premissa. Agora, não existe mais relação entre luta armada e terrorismo de Estado.
·         “Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia.” Quem construiu um discurso desse naipe, na verdade, foi o próprio Regime Militar. Todo aquele que era contra a Ditadura era comunista, inclusive Ulysses Guimarães, dom Helder Câmara e Fernando Henrique Cardoso. Ademais, a esquerda não teme o debate e muito menos a democracia. Ela quer que sua versão, deturpada por anos de censura e por uma miríade de adjetivos pejorativos referentes aos seus membros (terrorista, bandido, assassino), seja também posta para a opinião pública. E finalmente, quanto a ser adepto da Ditadura, engraçado isso partir do professor Villa. Reitero o conselho para que leiam a resposta de Luís Nassif à fala de defesa da Ditadura do professor Villa: http://blogln.ning.com/forum/topics/marco-antonio-villa-e-a. O artigo sem “correções” pode ser encontrado em http://danilomarcolin.blogspot.com.br/2009/03/ditadura-brasileira-por-marco-antonio.html. Leiam e tirem as próprias conclusões do que estou dizendo.
·         “Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos "defensores da ordem" poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de "cala-boca" financeiro. (...) Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha. O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão. Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.” O governo não teme nada disso. Uma acusação dessas chega a ser ridícula, afinal é ele quem está promovendo a abertura dos arquivos, através da Comissão da Verdade. Ele quer saber onde estão esses arquivos, que os ex-agentes da repressão mantêm longe das vistas da opinião pública. Quem teme a abertura deles, e deixa isso bem claro, é a direita. Vide as últimas postagens do Reinaldo Azevedo e a inquietação dos reaças do Ternuma. O professor só acerta, felizmente, quando diz que “abrir os arquivos não significa revanchismo”. Afinal, e eu concordo plenamente, essa é a melhor forma de se evitar “os boatos e as versões fantasiosas”. É um fato que os torturadores e seus rábulas da mídia vão ter que aceitar e engolir.