sexta-feira, 29 de março de 2013

CQC EXPERIMENTA DO PRÓPRIO VENENO E NÃO GOSTA: CENSURA VÍDEO DE JORNALISTA

Do blog Com Texto Livre

O vídeo censurado no You Tube: clique na imagem para vê-lo no Yahoo Vídeos 
O jornalista Jorge Antonio Antonio Barros, dono do blog Repórter de Crime, encontrou-se no aeroporto de São Paulo com um dos CQCs, Rafael Cortez (ambos viajariam para o Rio), e aplicou com ele a mesma técnica que os humoristas usam com as suas vítimas.
Ligou uma câmera amadora e começou a fazer perguntas embaraçosas a ele e à equipe que o acompanhava.
O troço terminou com um dos integrantes pondo a mão na lente da câmera do repórter para impedi-lo de filmar – e Rafael Cortez, posteriormente, foi à Justiça para retirar o vídeo do YouTube.
Portanto, um CQCéte, experimentou do próprio veneno e não gostou. CQC – “Custe o que Custar”, como vocês sabem é um programa de origem argentina, no Brasil produzido pela TV Bandeirantes.
Eu sustento um debate para tentar entender se programas tipo CQC podem ser considerados jornalísticos. Eu tendo a achar que não, mas gosto de ouvir argumentos que me contrariam.
Nós gostamos do esculacho aos políticos, como uma espécie de vingança contra eles. Mas o que sobra disso, do ponto de vista do interesse público?
Nós nos divertimos do mesmo modo que se divertem os apreciadores de programas policiais quando os “apresentadores” e “repórteres” “enfrentam” os “bandidos” passando-lhes lição de moral ou humilhando-os.
Quem falou algo certeiro sobre isso foi minha filha de 16 anos. Ela disse que, nesse sentido, o programa “Pânico” é “mais digno”, pois não traveste suas algazarras e brincadeiras de “jornalismo”. O objetivo deles, declarado, é divertir por meio da esculhambação com tudo e com todos. Ponto.
Na lista da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) iniciei um debate sobre o personagem “João Buracão”, que é usado pelo jornal Extra (Rio de Janeiro) para apontar onde existem buracos na rua. O personagem ganhou tanta importância que foi parar no programa Fantástico e nas novelas na Globo (se bem que não é de se admirar, já que a autorreferência da Globo é quase doentia).
Houve quem considerasse isso aceitável em jornalismo (a maioria) e quem defendeu de modo contrário. Vou consultar os pares se posso divulgar trechos da conversa que mantivemos na lista; se não houver oposição, qualquer dia o farei – ou poderei fazê-lo sem divulgar os nomes dos que intervieram no debate. (Isto é, se ainda encontrar os e-mails.)
Mas voltemos ao caso do CQC Rafael Cortez, nas palavras do jornalista Jorge Antonio Barros, segundo ele expõe em seu blog (trechos):
«Depois de 28 anos de jornalismo, completados mês passado, estou enfrentando o pior adversário da imprensa e da cidadania: a censura imposta pelo poder econômico. A empresa Rafinha Productions entrou com um pedido para remoção no YouTube do vídeo exclusivo que fiz, em tom de irreverência, com o apresentador Rafael Cortez, um dos repórteres do CQC. O vídeo foi removido ontem do site do Google devido “à reivindicação de direitos autorais da Rafinha Productions”.
Em primeiro lugar não há qualquer violação de direitos autorais. O vídeo foi idealizado, produzido e feito por mim mesmo, entre o check in no saguão do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e o desembarque de um voo da Webjet, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, na tarde de terça-feira passada. Depois foi editado em meu computador pessoal e publicado na madrugada seguinte no canal “reporterdecrime” no YouTube.
No vídeo de cinco minutos, que em apenas algumas horas chegou a mais de 1.500 exibições no YouTube, entrevistei Rafael Cortez sobre amenidades até arrancar dele a declaração absurda de que a mídia é a culpada da violência no Rio. O vídeo tem ainda um dos integrantes da produção falando em tom ameaçador contra o Repórter de Crime.
Enfim, com apenas uma simples brincadeira de vídeo caseiro, descobri como é tênue o limite entre a fama e o mau humor. Só não imaginava que comportamento assim partisse de profissionais que têm na sua principal atividade aquilo que parecem detestar na intimidade: lidar com gente.»

PS: quem quiser ver o vídeo, que não se encontra mais no Youtube, é só visitar o seguinte sítio:http://contextolivre.blogspot.com.br/2013/03/cqc-experimenta-do-proprio-veneno-e-nao.html 

sábado, 9 de março de 2013

A MORTE DE CHÁVEZ E A FRACA ANÁLISE DE ALGUNS

                Não é novidade pra ninguém a notícia da morte do presidente venezuelano, coronel Hugo Rafael Chávez Frias, ocorrida há quatro dias. Não deve ser novidade também a repercussão que essa notícia teve na imprensa e nas redes sociais, principalmente por parte de seus detratores. Resolvi escrever esse texto depois que presenciei isso num dos grupos de discussão do Facebook do qual participo.
                Quero dizer primeiramente que não acho nenhum tipo de crítica a quem quer que seja, ilegítima. Criticar é um direito de qualquer ser pensante. Mas considero que, assim como existe a liberdade de criticar, de não concordar com algo, existe a liberdade de replicar, de não concordar com a crítica. Principalmente quando ela vem mal fundamentada, como foi o caso. E mais ainda quando parte de pessoas que deveriam ter mais um pouco de esmero ao analisar fatos sociais. Um historiador, por exemplo. Não são poucas as vezes em que nos deparamos com gente que, tendo formação em História, se deixa levar por fracas análises feitas por amadores, gente que não tem formação na mesma área. Ao invés de ensinar a História aos outros, o que é seu ofício legítimo, se torna reprodutor de discursos que não passam nem mesmo numa análise modesta dentro desse campo do conhecimento. E eu me deparei com vultosas “pérolas”, vindas de um dos professores de História mais respeitados da minha cidade. “Pérolas” essas que mostro a seguir. Antes, porém...
                Antes, porém, gostaria somente de esclarecer que ninguém, repito NINGUÉM, está acima de questionamentos e críticas. Só acho que não se deve faltar com a verdade, nem se abster dos embasamentos da pesquisa. O senhor Chávez, como qualquer um de nós, tem defeitos, que devem ser realmente colocados e questionados. Passar disso é mentir descaradamente. E quando se trata de um historiador, é mais grave ainda. Dito isso, vamos aos exemplos:
                O meu eminente interlocutor começa dizendo, a título de crítica introdutória, e com tons irônicos, que o presidente Chávez era “amigo das FARC, dos irmãos Castro (Fidel e Raúl) e do Irã.” Para quem só lê Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho, é uma bofetada e tanto. Pra quem lê História, o buraco é mais embaixo. Como assim? Apesar de críticas que devem ser feitas aos três, a colocação merece complementações. Comecemos pela guerrilha colombiana. 1) As FARC são realmente um grupo guerrilheiro que se vincula ao narcotráfico e pratica sequestros. Como também o fazem grupos colombianos de direita, como o AUC. Sempre é bom lembrar isso. Assim como é bom lembrar o fato de que foi Hugo Chávez, e não o governo intransigente de Álvaro Uribe, quem conseguiu o ineditismo de fazer com que a guerrilha entregasse alguns reféns. Pelo visto, uma “amizade” que trouxe bons frutos. 2) Quanto à ditadura cubana, sempre se tratou de uma questão de honra da direita tupiniquim, mesmo que a República dos Castro nunca tenha nos feito nenhum mal, ao contrário dos tão adorados EUA. Aproximar-se de Cuba, uma “ditadura sanguinária”, que, incrivelmente, e apesar da discordância do canal Fox (conservadoríssimo), mantém níveis satisfatórios de atendimento hospitalar, mortalidade infantil, alfabetização e alimentação, é uma heresia. Isso para Veja e afins, não para historiadores. Falta na crítica um pouco mais de aprofundamento. 3) Quanto a ser amigo do Irã, fico sem saber o que tem isso demais. Deveria ser amigo de Israel, que mata crianças palestinas inocentes, e prende e tortura outras tantas? Ou da Arábia Saudita, em que mulheres não podem nem dirigir e professores não podem trazer a Bíblia para uma aula? Ah, já sei, é por causa da bomba (mais uma vez o vejismo). Se fosse assim, deveria-se começar o repúdio pelos EUA, que foram até hoje os únicos que fizeram atentados nucleares na História. Mas seria pedir pra ler coisas demais!
                E meu colega continua: “O governo Chávez fechou órgãos de comunicação pelo simples fato destes serem oposição”. Digno do Reinaldo ou do Olavo. Ou de estudantes do primeiro período. Na boca de um profissional da História, é uma aberração. Dizer isso é desconhecer os fatos. Senão vejamos: Será que ele sabe que redes de televisão são concessões estatais, com prazo de validade, que podem ser ou não renovadas? Será que ele sabe que a única rede de televisão que perdeu a concessão, durante todo o mandato de Chávez, foi a Rádio Caracas Televisión (RCTV)? Será que ele sabe que a razão disso foi o fato de a emissora ter participado ativamente de uma tentativa de golpe de Estado em 2002? Será que ele sabe que esse crime é punido em outras partes, como nos EUA e no Reino Unido, por exemplo, com a pena de morte? Não deve saber. Os “tratados” de História de Olavo de Carvalho não ajudam muito nesse ponto. Ele devia “zelar melhor pela sobrevivência do seu cérebro”!
                O perigo dessas coisas é que contagia o senso comum, sempre pronto a “entender” sobre tudo. Um dos amigos de meu eminente colega sai com essa pérola: “Eles mesmos (os cubanos) cultuam essas figuras (tipos como Chávez e Castro). Convivo diariamente com um cubano, e ele acha bobagem o que prega aquela blogueira que andou pelo Brasil. Eles recebem 22 dólares de salário e acham normal. As empresas que se instalam em Cuba, pagam ao governo e o governo que paga o salário de 22 dólares aos cubanos, e isso é tudo normal. Claro, não são todos... mas é um exemplo real, fiquei besta ao escutar do próprio.” Que absurdo, vejam só? O cara recebe US$ 22,00 por mês e ainda acha bom? Por que será? Deve ser porque lá uma cesta básica custa US$ 3,00. Ou porque o aluguel custa entre US$ 1,00 e US$ 2,00. Ou mesmo porque com US$ 1,00, o cubano pode pagar dois meses de eletricidade. Ou ainda porque a passagem de ônibus custa US$ 0,15. Sem falar na educação e na saúde, que são gratuitas. Números como esse não são vistos em Veja.
                E o show de absurdos não para por aí. Sempre há que se dizer que “esses caras se sustentam na boa fé do povo sofrido” (quem os fez sofrer tanto, é algo que nenhum deles ousa responder!). Sem falar naquilo que uma vez vi chamarem de reductio ad Hitlerorum, ou seja, quer fazer algo parecer ruim, perverso e asqueroso, estabeleça qualquer semelhança com Adolf Hitler. No fundo, mistura perniciosa de sofisma com baboseira, e um toque especial de leituras mal feitas. E há ainda algumas outras colocações menores, sobre as quais não vejo necessidade de me debruçar no momento. Afinal, o que eu queria dizer já foi dito, pelo menos por enquanto. Espero que essas palavras tenham alguma serventia, para quem deseja, SINCERAMENTE, conhecer melhor os assuntos em questão. Espero também, que as discordâncias apareçam, mas dessa vez mais bem fundamentadas e embasadas. Sem distorcer os fatos e sem informações incompletas.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

TRANSPARÊNCIA PÚBLICA

Há algum tempo participo de um grupo que discute política em minha cidade natal, Limoeiro do Norte - CE. Por algumas vezes nos reunimos pra pensar coisas importantes para nossa cidade. Uma das coisas que nos inquietou foi a falta de transparência no trato com o dinheiro público. O texto a seguir, que trata do assunto, é de autoria do meu pai, José Castro Maia de Freitas, que fazia análises políticas semanalmente numa rádio local. Foi escrito em Novembro de 1999. Mas parece que foi ontem. É sobre Limoeiro, mas vale pra qualquer cidade do interior:

                Uma das principais obrigações do administrador público é governar de forma transparente, de modo que não paire nenhuma dúvida sobre suas ações, e assim permita um melhor e mais preciso julgamento da parte dos seus governados. O grande problema que se vê hoje no relacionamento entre sociedade e governo é exatamente a ausência quase total desse requisito primordial que deveria estar presente nas ações de todos os gestores da coisa pública. As administrações públicas municipais, por estarem bem mais próximas do povo, dos cidadãos, são as que mais se ressentem desse fator e porquanto são as que mais necessitam desse elemento, fundamental em qualquer lugar do país.
                Hoje, através dos jornais, rádios, televisões e até da rede mundial de computadores (Internet), com um pouquinho de esforço, se tem, em mãos, os dados reais sobre os recursos financeiros que entram mensalmente nas prefeituras. Por outro lado, quando se trata da verdadeira aplicação desses recursos por parte dos executivos e seus secretários, a coisa se transforma em mistério. Por mais que a sociedade cobre é impossível se saber corretamente como são ou como estão sendo aplicados tais recursos. Os governantes preferem arcar com o ônus da desconfiança e da crítica velada dos cidadãos, que a cada dia mais desacreditam das suas boas intenções e dos seus bons propósitos, do que informar corretamente, e com precisão, onde está sendo gasto, tostão por tostão, o dinheiro arrecadado, negando assim ao povo um direito que lhe é assegurado pela própria Constituição Federal.
                A população entende, e até com uma certa razão, que essa atitude estranha da quase totalidade dos nossos gestores públicos, sobretudo dos prefeitos municipais, tem por finalidade uma única questão, qual seja, a de esconder gastos, despesas ou desperdícios de dinheiro, que se chegados ao conhecimento público, provocariam grandes reações contrárias a esses governantes, muitos dos quais não teriam, se fossem verdadeiramente abertas as suas “caixas pretas”, condições de continuarem com os seus mandatos.
                Há outra questão sintomática que também deixa o cidadão desconfiado. É a preocupação dos Executivos com a maioria nas Assembléias e Câmaras de Vereadores. Sabe-se que essas maiorias, tanto nos Legislativos estaduais quanto nos municipais, principalmente nos segundos, quase sempre são conseguidas fora das regras convencionais. Não gostamos da expressão, mas é comum se ouvir que elas, as maiorias, se dão pela compra de parlamentares. Por que isso? Por que e para que servem essas maiorias? Se as administrações públicas, federal, estaduais e municipais, especialmente as municipais, fossem realmente transparentes, sérias, e portanto destinadas ao verdadeiro atendimento dos reais interesses da coletividade e direcionadas ao equacionamento ou, pelo menos, à diminuição dos graves problemas sociais, não necessitariam prioritariamente dessa maioria. Na democracia existe a figura da negociação, do acordo, da barganha, que aqui não podem ser confundidos com negociata, desajuste ou transação ilegal.
                Aliás, discute-se muito hoje a formação dessas maiorias nos parlamentos, e há quem afirme que elas existem muito mais para encobrir desmandos administrativos, do que para servir ao povo, ao cidadão, à comunidade. Pelo visto, e de acordo com os resultados, diga-se de passagem, catastróficos de certos governos, passados e presentes, esta afirmação está correta.               
                A quase completa nulidade das nossas Câmaras e Assembléias, no tocante às suas prerrogativas constitucionais, é mais um atestado de que existe algo de podre nesse relacionamento Legislativo/Executivo.
                A responsabilidade que pesa sobre as casas legislativas é muito grande nestes casos, por isso os desgastes provocados pela falta de fiscalização por parte de deputados e vereadores só servem para aumentar cada vez mais a desconfiança do povo, redundando no próprio descrédito de toda classe política. O cidadão comum, com certeza ignora as leis e as normas contábeis que regem as administrações públicas, porém ele sabe quando um gestor, um prefeito, está se comportando direito com relação aos seus gastos e com a aplicação correta dos recursos. Quanto mais claro for o relacionamento entre governantes e governados, na questão do uso das verbas públicas, maior será a aceitação e o apoio dos segundos para com os primeiros, e consequentemente, menor será o risco de desvio e malversação dos recursos públicos.
                Esse princípio é muito simples e fácil de ser entendido pela população. No entanto, na prática acontece sempre o contrário. Daí a existência cada vez maior dessa onda de descrédito do povo com relação aos seus administradores. Não importa aqui se as maiores críticas são direcionadas ao Poder Executivo ou ao Legislativo, porque afinal de contas, ambos são os responsáveis pelo que ocorre de bom e de ruim numa administração. Em suma: o primeiro deveria apenas e simplesmente cumprir o que determina o segundo tendo como fundamento apenas o respeito, a harmonia e a independência.  

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

DOSTOIÉVSKI E NIETZSCHE: ENTRE O SUPER-HOMEM E O HOMEM EXTRAORDINÁRIO


De autoria do estudante de filosofia da UNB João Victor, colhido no sítio Literatortura:

Fiódor Dostoiévski é considerado o escritor filósofo por excelência. Suas obras são um manancial de reflexão filosófica sobre diversos temas. Entre seus escritos, vários deles consagrados como clássicos da literatura universal, destaca-se aquele romance que é, para mim, seu maior trabalho: Crime e Castigo.
Crime e Castigo narra a história de um jovem estudante de Direito, Raskolnikov, que passa por severas dificuldades financeiras e comete um assassinato para supri-las. A investigação do assassinato e a reação de Raskolnikov ao próprio ato conduzem o enredo. Entretanto, o ponto mais interessante da obra é o que leva o jovem a cometer o crime. Raskolnikov havia publicado, algum tempo antes do assassinato, um artigo, em que expunha sua “teoria do homem extraordinário”. É essa teoria que pretendo analisar aqui.
Para Raskolnikov, o homem extraordinário é aquele que, tendo em si a capacidade de produzir obras de imenso valor para a humanidade, tem o direito de burlar as leis morais. Ou mais profundo ainda, de simplesmente ignorá-las, para conseguir realizar o que pretende. O homem extraordinário não se submete às leis que governam os outros homens, pois está acima delas. O exemplo repetidamente lembrado por Raskolnikov ao longo do romance é Napoleão, que não hesitou nem um momento em cometer todos os crimes que cometeu para chegar ao poder e governar. Essa ausência de remorso, esse sentimento de poder ser imoral e, ao mesmo tempo, de que não se é imoral, pois se está acima da moralidade, é o que caracteriza o homem extraordinário.
Raskolnikov pensou ser um homem extraordinário. Refletindo sobre sua mãe e irmã – esta última que iria se casar apenas para, com a proteção do marido rico, ajudar a mãe a viver e o irmão a concluir seus estudos – Raskolnikov pensou que não poderia esperar seus estudos terminarem, levar uma vida medíocre de professor enquanto ganhava alguns trocados. Precisava de dinheiro imediatamente, para poder realizar suas grandes obras. Por esse motivo, Raskolnikov planeja e executa o assassinato de uma agiota. No entanto, ele acaba matando, também, por acidente, a irmã da agiota, uma moça inocente e gentil. Raskolnikov, então, entra num circulo de insanidade e culpa crescente, enquanto tenta esconder tal sentimento de quem investiga o crime.
Não quero contar nada mais sobre a história, para não impedir que os leitores que não conhecem a obra queiram lê-la. No entanto, um ponto importantíssimo merece menção: Raskolnikov se culpa pelo assassinato.
Isso demonstra, de primeira, que Raskolnikov, embora tenha criado a ideia dos homens extraordinários, não poderia ser colocado entre eles, pelo simples motivo de que ele sente culpa pelo que fez, apesar de tê-lo feito por um motivo maior, grandioso.

A tese de Raskolnikov é muito interessante. E, agora que ela foi apresentada, tenho certeza que alguns dos leitores estão pensando sem parar no “Super-Homem” de Nietzsche. E estão corretos. Mas, não cometamos um erro. É Nietzsche que se inspira em Dostoiévski e não o contrário. O fervor de Nietzsche pelo gênio de Dostoiévski não era segredo (embora, é claro, houvesse ressalvas, como sempre havia com os elogios do filósofo dos Alpes).
O conceito de “Super-homem” que Nietzsche apresenta, no entanto, é um pouco diferente do homem extraordinário que Dostoiévski põe na boca de Raskolnikov. O Super-Homem é, para Nietzsche, o estágio final da humanidade, que não é, senão um preparo, para aquele. Esse super-homem também não se rende às leis morais, nem sente remorsos, mas por um motivo diferente. Para Nietzsche, o super-homem é o fim da luta entre a moral dos escravos (cristianismo) e a moral dos aristocratas. O ser humano deve, por força da sua vontade, elevar-se acima da humanidade. Deve desenvolver sua vontade de poder, vontade de descarregar suas forças e dar o maior alcance às próprias capacidades. Ele irá superar os velhos valores e criar novos, que lhe sirvam. O Super-Homem de Nietzsche rejeita tudo e fica apenas com sua própria vontade, sem aceitar nada que o impeça de ser aquilo que ele é.
A grande diferença, para mim, nas noções do “super-homem” e do “homem extraordinário”, é que Raskolnikov não nega que a moral seja aplicável aos que não são homens extraordinários. Mas apenas que ela não se aplica a estes, enquanto Nietzsche nega a moral de todos os modos, defendendo que é por fraqueza que aceitamos a moral. Além disso, o homem extraordinário, aparentemente, segue uma moral [mora, moral, moral haha], apenas deixa de segui-la quando ela entra em conflito com seus interesses. É uma diferença sutil, penso eu, pois parece que Raskolnikov também quer crer que a moral é uma fraqueza, o que me faz pensar, por vezes, que não haja grande diferença entre Nietzsche e Dostoiévski, nesse ponto específico. Mas Raskolnikov não pôde abandonar a moral. E isso merece destaque.
Ele não pôde, e, embora seja um personagem, isso mostra um aspecto interessante da teoria de Nietzsche: a sua aparente impossibilidade de realização. Não consigo ver um homem se tornar um Super-Homem nietzschiano de modo algum. Ou melhor, talvez eu consiga, mas esse seria um psicopata. Honestamente, o remorso não é propriedade absoluta do cristianismo, embora essa religião tenda a reforçá-lo. Temos outras explicações para o remorso, talvez até melhores (Darwin, por exemplo, fala do remorso advindo de não fazer o que seria melhor para a sobrevivência da espécie) que a de Nietzsche. Para que se configure um Super-Homem na Terra [um homem completamente sem remorsos e sem moral que não seja sua criação para extravasar sua vontade de poder], é preciso um psicopata, um homem que, devido a uma patologia, não sente remorso e somente se importa com o que diz respeito aos seus interesses. Podemos dar alguns exemplos, então, de super-homens que já existiram ou existem.
Temos, também, alguns exemplos do que Raskolnikov chamou de “homens extraordinários”. Mas esses, na minha opinião, não diriam que a moral não existe ou não seguiriam nenhuma moral, apenas a burlariam para seus próprios fins.
Se eu estiver certo, parece muito pouco desejável que existam super-homens. Na realidade, sempre me pareceu que a querela de Nietzsche com o cristianismo, acrescida do seu radicalismo extremo em tudo que falou, fez com que ele simplesmente descartasse a moral por não concordar com a moral cristã (e também budista, em vários pontos). Algo imprudente, na minha opinião.
Mas, Crime e Castigo é um romance extraordinário, eu diria.
E, então, o que acharam? Que tal o super-homem e o homem extraordinário? Concordam com a minha ideia? Não deixem de dar sua opinião e, claro, de curtir o post. Espero que tenham gostado do texto. Obrigado!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

AS TENDÊNCIAS E O ATO: AS “REPÚBLICAS” IDEAIS E A REPÚBLICA REAL.

Hoje é o dia da Proclamação da República. Podemos ver, até hoje, que passados 123 anos, muita coisa ainda fica a desejar, quando se trata do verdadeiro trato com a "coisa pública". Em virtude disso, achei interessante destacar que os males vêm desde a origem. Publico aqui, então, um texto feito por mim em 2006, que foi avaliado para a obtenção de uma nota na disciplina História do Brasil II. Fala exatamente sobre os vencedores do 15 de novembro e, consequentemente, da desilusão de grupos que queriam uma coisa diferente. Se seria mesmo, não se sabe. Não cabe ao historiador dar essas respostas. Mas fica aqui como um registro interessante das ideias que permeavam o período, muitas vezes esquecidas nos livros, e das primeiras tentativas literárias desse humilde blogueiro.



As ideologias republicanas

               A propaganda republicana vem à tona no Brasil a partir de 1870, tendo como estopim três fatos ocorridos na capital do Império: a fundação do Clube Republicano, o lançamento do famoso Manifesto de 3 de dezembro e a 1ª edição do jornal A República. No entanto, é somente a partir do primeiro Congresso do Partido Republicano Paulista, em julho de 1873, que a ação se torna mais organizada.[1] O republicanismo ganha notoriedade por tratar principalmente de três questões: a campanha pela eleição direta, pela abolição, e também por darem suporte civil às reivindicações militares.[2] Cresce vertiginosamente nos anos finais do Império, penetrando em todo o país, passando a representar pela primeira vez uma preocupação para as autoridades locais e imperiais.
               No entanto, apesar do crescimento, a campanha republicana só se mostrou praticamente ativa na capital do Império, e nas províncias de São Paulo e do Rio Grande do Sul. E cada uma dessas unidades se mantinha sob a influência de uma determinada corrente política dentro do pensamento republicano. No Rio Grande predominou um forte cunho autoritário, baseado no pensamento positivista, tendo como liderança principal Júlio de Castilhos. A liderança mais proeminente desta tendência em âmbito nacional era Benjamim Constant.
Os sociocráticos, ou positivistas, eram inimigos abertos da democracia representativa, para eles característica do estado metafísico da humanidade. Em seu lugar deveria ser implantada a ditadura republicana, forma de governo inspirada tanto na tradição clássica romana como na figura de Danton (...). O ditador republicano governaria por toda a vida e escolheria seu sucessor.[3]

               Em São Paulo quem davam as cartas eram os moderados, que evitavam atacar acintosamente o problema da escravidão, preferindo solicitar reformas legislativas, decidindo inclusive, se aliar com os conservadores em algumas eleições. Já a capital do Império via-se dividida entre a corrente moderada, liderada por Saldanha Marinho e Quintino Bocaiúva, e a corrente dos radicais ou românticos, liderada por Aristides Lobo, Silva Jardim e Lopes Trovão.
As lideranças mais radicais que pregavam até mesmo a revolução, como Silva Jardim ou Lopes Trovão, vinham sendo sistematicamente neutralizadas pelos grupos mais conservadores.[4]

               Em 1889, o movimento republicano havia chegado ao auge. No entanto, como não havia possibilidade de mudança dentro da lei, a instauração da República só se faria através de um golpe ou de uma revolução.

Os militares e o golpe

               Os militares não possuíam nenhuma convicção política republicana. No entanto, foram os realizadores do golpe que pôs fim ao Império. As razões para isso devem ser buscadas no corporativismo e nos ressentimentos que os militares tinham para com o governo imperial. Diziam que este não os tratava com o devido merecimento. Merecimento esse que poderia ser traduzido em maior prestígio e poder, dado o enorme esforço de guerra empreendido no Paraguai.[5] Houve também o caso, conhecido como Questão Militar, que envolveu o ministro da Guerra e dois coronéis do Exército, que pode ser tomado como a gota d’água das tensões entre o governo e os militares, já que traduz a velha reivindicação militar contra a interferência política nos seus assuntos institucionais. Esse fato contagiou a baixa oficialidade e os cadetes, além de unir personalidades dos altos escalões militares.[6] Com a notícia de que o governo estava aparelhando a polícia e a Guarda Nacional e de que iria desmobilizar o Exército, este prontamente “pôs-se de pé” e deflagrou o golpe, apoiado tanto pela baixa oficialidade positivista de Benjamim Constant, quanto pelos civis, tanto pelos moderados, quanto pelos radicais, tanto pela classe dominante como pelos grupos representativos das tendências populares.
A classe dominante, acreditando no golpe saneador, via essa ação militar como uma atitude conservadora que evitaria um mal maior, possivelmente representado por uma rebelião que levantasse várias camadas da sociedade e cujas conseqüências poderiam ser imprevisíveis. Os grupos mais exaltados, representativos das tendências populares, viram-no como a possibilidade de exclusão definitiva das velhas oligarquias, do cenário político nacional.[7]


Vitórias e desilusões

               A República brasileira, instaurada em 15 de novembro de 1889, apresentou características próprias que fizeram valer, ou não, os ideais ou os interesses das correntes políticas republicanas. Vejamos os ganhos e as perdas políticas de cada grupo especificamente.
               Os radicais, ou românticos, ou exaltados (Lobo, Jardim, Trovão), foram os primeiros a sentir os impactos políticos do novo regime, a tão sonhada República, à qual dedicaram boa parte das suas vidas. Primeira desilusão: o governo instalado foi uma ditadura provisória, em que o Presidente tinha prerrogativas legislativas até a eleição de uma Assembléia Constituinte. Os privilégios de classe e a estrutura sócio-econômica continuaram os mesmos, até por que, o próprio ato não condisse com o ideário do grupo, que era o de uma República feita a partir de uma revolução popular. Outra desilusão: as eleições das constituintes estaduais e da federal reproduziram o mesmo sistema da época do Império, como a influência do poder local sobre os eleitores, como as fraudes, como o bico-de-pena, entre outras coisas.[8] Para resumir numa frase toda a desilusão sofrida pelos românticos, vem a calhar as palavras de Martinho Prado Júnior: “Esta não é a República dos meus sonhos”.[9]
               Os moderados, ou realistas (Bocaiúva, Marinho), foram a priori derrotados em razão de que a Proclamação teve origem numa quartelada militar. Sendo eles republicanos históricos, não aceitavam o fato de não terem liderado a deposição do antigo regime. Portanto, não puderam instalar nesse primeiro momento o seu ideário republicano, que era o modelo liberal e federalista. Eram contrários à ditadura militar, pois, como representavam a classe dominante, temiam Deodoro por suas posições autoritárias e militaristas, centralistas e anti-liberais. Ao fim, se tornariam os vencedores da luta política com a eleição de Prudente de Morais em 1º de março de 1894.
               Com os positivistas ocorre o contrário do que ocorreu com os realistas. Benjamim Constant, o grande líder do grupo, participou ativamente do golpe e sempre foi tido como um dos fundadores da República. Como Deodoro, os positivistas eram corporativistas (muitos eram militares), além de anti-liberais e defensores da ditadura republicana. No entanto, o próprio Benjamim Constant via o Exército mais como um instrumento do que como um fim,[10] o que não impedia que seu grupo divergisse mais dos históricos que do Marechal. Com a ascensão dos realistas ao poder em 1894, os comtianos brasileiros viram-se também politicamente derrotados. Tudo que lhes sobrou dessa vitória passageira, até os dias de hoje, foi a bandeira da República.

Conclusão: vitória dos grupos oligárquicos

               Como já foi dito, a vitória na luta política coube aos realistas, representantes das oligarquias defensoras do regime republicano.
Para fechar o círculo, havia necessidade de se estabelecer um pacto, que aglutinasse as várias oligarquias. Esse acordo começa a nascer no Congresso Nacional, à época de Deodoro, se fortalece no efêmero Partido Republicano Federal, por ocasião da eleição de Prudente de Morais, e se consolida na “política dos governadores”, ao tempo da presidência Campos Sales. Era uma composição que se baseava na aceitação da hegemonia paulista em nível nacional e, em troca, no reconhecimento da autonomia das oligarquias em nível local.[11]

               Foram instaurados afinal o liberalismo e o federalismo, de uma forma bem peculiar ao Brasil, tal como eram idealizados pelos republicanos históricos moderados de São Paulo. Mudou-se o regime político e manteve-se o status quo sócio-econômico. Nas palavras de Hamilton Monteiro: “(...) mudara-se o regime político porém continuava o velho “mandonismo” oligárquico.”[12]




BIBLIOGRAFIA:


CARVALHO, José Murilo de. As proclamações da República; in: A Formação das Almas: O imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

SEVCENKO, Nicolau. O prelúdio republicano, astúcias da ordem e ilusões do progresso; in: História da Vida Privada no Brasil 3: República da Belle Époque à Era do Rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

MONTEIRO, Hamilton. Brasil República. São Paulo: Ática, 3 ed., 1994.


[1] MONTEIRO, Hamilton. Brasil República. p. 10.
[2] Ibidem. p. 11
[3] CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. p. 41.
[4] MONTEIRO. Op. cit.. p. 13.
[5] CARVALHO. Op. cit.. p. 39
[6] MONTEIRO. Op. cit.. pp. 18-19
[7] Ibidem. p. 16.
[8] Ibidem. p. 29.
[9] CARVALHO. Op. cit.. p. 52
[10] Ibidem. p. 41.
[11] MONTEIRO. Op. cit.. pp. 69-70.
[12] Ibidem. p. 68.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

A MORTE: NOSSA INCOMPREENDIDA AMIGA


                Hoje é o dia em que se recorda os que morreram. A Igreja Católica chama de Dia de Finados (ou dos Fiéis Defuntos). Mas não precisa ser religioso para vivenciar a data. Alguns não precisam nem de data, não é verdade? A questão é que hoje é o dia para, deliberadamente, parar e pensar nos que morreram, nossos parentes, amigos, ou qualquer outra pessoa importante. Deveria ser um dia, também, para se refletir sobre o significado da própria morte em si. A morte... companheira constante, e um tanto incompreendida, da raça humana.
                Pensar a morte pode parecer para alguns algo mórbido, de mau gosto. À primeira vista, até que sim, mas explorado em seus múltiplos vieses, o assunto pode ser extremamente instigante. Que o digam os artistas. No cinema, a morte pode ser tema, desde filmes de terror, aos dramas, filmes históricos, comédias (quem diria?), e até desenhos animados. Na música, vários de seus aspectos ressaltam, ajudando a compreendê-la melhor. Quem conhece boa música, sabe do que falo. Pode-se ironizá-la, temê-la, amá-la, mas não se pode escapar da sua inevitabilidade. Compreender isso é, sem dúvida, o ponto principal para inseri-la no cotidiano, destemê-la, e assim, torná-la palatável, transformá-la em nossa amiga.
                Amigo da morte? Sim, amigo da morte. E esse dia, mais do que nunca, pelo fato de ela quase materializar-se diante de nós, é o momento propício. E por que? Para criarmos uma ideia fixa doentia pela morte? Não. A questão vai mais além. No meu entender, só fazendo essa aproximação, banalizando-a (no bom sentido), é que podemos vê-la como ela é: algo que não é menos do que já tenhamos visto, que não é pior do que tudo que já passamos, e passaremos. Algo secreto, misterioso, insondável. A morte é o fim? O que há depois dela? Que mal, pior que os que a vida proporciona, ela pode nos fazer? Dependendo da crença religiosa, da situação que se vive, ou de qualquer outro ponto de vista, a morte pode significar passagem, pode significar descanso, pode significar liberdade. Alguns dizem que ela dá graça à vida, sustentando à ideia de que seria uma droga se nunca morrêssemos. Discordâncias à parte, isso só mostra que nem tudo é horrível assim na morte. Tanto que no inferno, não se morre.
Portanto, aproveitemos o ensejo para, mesmo querendo viver a vida em todas as suas possibilidades, melhorarmos nossa relação com a morte. Aceitá-la, como diz Gabriel O Pensador, pois ela “faz parte da vida”. Ela que está além da nossa vontade. Ela que nos iguala, como bem diz Ariano Suassuna. Ela que nos faz mais humanos, diferentes dos deuses, imortais, e dos animais, ignorantes de sua existência. E aproveitemos também para lembrarmos com carinho dos que já foram, seja chorando a eterna saudade, seja esperando o sublime reencontro.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O SENTIDO DA POLÍTICA: DA UTOPIA À REALIDADE, OU A REALIDADE CONTRA A UTOPIA?

O texto a seguir não é meu. É do meu compadre Ângelo Felipe Castro Varela, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. É um texto lúcido e bem elaborado, publicado na página do Facebook onde discutimos política, principalmente na nossa cidade natal, Limoeiro do Norte, no interior do Ceará. Vale, entretanto, pra qualquer lugar. Fica também como um substituto ao texto que pretendi escrever, e não o fiz, no dia 22 de Junho, dia de São Thomas Morus, de quem sou devoto.


Opinião - O Sentido da Política: Da utopia a realidade, ou a realidade contra a utopia?

Thomas Morus (pode ser também, Thomas Moore, em tradução inglesa) é um santo, filósofo inglês, do século XVI, escritor de um livro interessantíssimo, chamado A Utopia, cujo enredo se passa em um lugar distante, pra ser mais exato em uma ilha, chamada Utopia (vale lembrar que Utopia é uma palavra, se não me engano, de origem grega, utopos e significa U- Ideal, sonho, e Topos-lugar). Portanto nesse lugar, ideal, Moore, imagina através de um estória, como deveria ser uma sociedade organizada, segundo as suas leis e seu governo, onde assim as pessoas poderiam melhor conviver. Fica fácil saber, como tudo o que não existe e que sonhamos, ou imaginamos, ganha o adjetivo de utópico. Aquilo que não está dado pela a realidade, imaginamos, ideal, utópico. Na verdade, tendemos a compreender e rotular que tudo aquilo que não é realizável com facilidade de utópico que ganha um significado de irrealizável, daí porque utopia passou a ser encarado como coisa, ou sonho irrealizável.

Thomas Moore em seu livro, cujo verniz literário, com personagens fictícios, é um panfleto político, uma vez que ele ataca a sociedade inglesa de seu tempo, principalmente o direito e o governo, onde ele critica a adoção da pena capital como sanção justificada para manter a ordem e a figura autoritária do monarca, cometia falhas e faltas graves, mesmo na defesa da ordem social que ele julgava fazer. Sugeria, Moore, que o governante deveria ter alguns conselheiros e que mesmo os súditos poderiam palpitar sobre a conduta do governante, a fim de melhorá-la. Claro, Moore sabia como ninguém, que o processo de pensar e reformar a sociedade, não aconteceria da noite pro dia. Ele mesmo, amigo pessoal do mornarca, fora perseguido por este e condenado, por criticá-lo e criticar o governo, quando discordava do seu imenso autoritarismo e arrogância, pela falta de liberdade para o pensamento, para a expressão de opiniões. Todavia, ainda assim, Moore não se omitiu diante dos infortúnios da política de seu tempo e reconheceu, em seu leito de morte, que a política também é a capacidade de fazer realizável, aquilo que ainda é irreal, dada a sua atividade criadora.

Ora, se o pobre Moore, não desfrutou de maior liberdade civil e política, os seus anseios e visões, foram suficientes para que a Inglaterra, dezenas de anos mais tarde, pusesse fim a monarquia absolutista, ao direito divino dos reis e promovesse da liberdades civis, do direito a opinião, da expressão, da religiosidade e abolisse a pena de morte, entre outras sanções repressoras e ineficazes. Tornou real, aquilo que era utópico. E assim vale pra a nossa sociedade. As garantias a que temos direito hoje não se edificaram da noite pro dia. As mulheres, nem humanas eram consideradas na Grécia Antiga. No século XIX, aquelas que propunham uma legislação de amparo a direitos de gênero, foram perseguidas, presas, torturadas, mortas. Hoje quem ousa dizer que mulher deve ser mandada e é inferior ao homem? O que pode acontecer se forem agredidas e tratadas com discriminação em seleções de emprego? Foi, ou não, a custo de muita luta e de muitas vidas, que hoje as mulheres desfrutam de melhor condição social e individual? E ainda assim, está longe, do que deveria, pois apesar de tanta legislação, defesa, luta, conquistas, as mulheres ainda sofrem mais com o subemprego e com a violência sexista. Sua luta política, trouxe a utopia feminista para a realidade das políticas de gênero.

E nós, que agora disputamos e conversamos, na realidade virtual, e onde ja sabemos dos resultados das eleições últimas, fazemos e traçamos prognósticos sobre os futuros governos eleitos, que utopia carregamos? Acaso carregamos mesmo alguma? Ora tendemos a julgar e taxar infantil, ingênuo, bobo, idealista aqueles que escrevem e importunam, com idéias, "nada realistas" acerca de como deveria ser uma gestão, no que consideramos pertinente ao ideário democrático. Achamos que essas pessoas escrevem no vazio, não sabem o que é a realidade, vivem a sonhar com o melhor e mais, ainda dizem que estes não se enganjam em nada, pois perdem tempo com seus sonhos e a propor algo que jamais será viável. Muitas pessoas acham que os "idealistas" ignoram a mecânica existente na organização do poder. Engano. Tanto conhecem, que tanto sonham. Tanto sabem, que criticam, que questionam. E estão cansados de tanto saberem, por exemplo, que os novos gestores vão seguir com a mesma liturgia, de indicar, lotear a máquina, assediar funcionários, personalizar e não planejar as ações governamentais. 

Amigos realistas, não pensem que todos os sonhadores não sabem o que se passa em uma sociedade. Não é porque eles escrevem e arriscam a pensar e propor, o que deveria ser feito, que eles ignoram o que continua a ser. Muito longe de ser um Moore, eu sei, como ele, que mudanças não acontecem de uma hora pra outra, sei como se dá a dinâmica da política, ainda mais na realidade tão brasileira que é Limoeiro do Norte. Contudo já aprendi com Moore, que insistindo com as mesmas práticas, o mesmo comportamento, do gestor, do eleitor, do vereador, de todos nós, não haverá mudança. Mesmo Maquiavel, que tanto escreveu sobre os bastidores do poder, tão objetivo como se fala, preferiu omitir suas convicções republicanas, para melhor escrever e descrever a realidade dos principados e a figura do governante. Mas Maquiavel não aceitava aquilo, ele não era maquiavélico. Como bem, comentou Rousseau sobre o filósofo italiano: "Maquiavel fingindo dar lições aos príncipes, deu grandes lições ao povo, que agora pode saber como age o governante somente preocupado com o poder e tão só contigo"

Portanto, ousemos, além dos esquemas reais, não nos resignemos a pensar política somente com o que já é, com os esquemas já pensados e repetidos, como os únicos possíveis. Não há mudança nisso. Não julguem o inconformado, o utópico, como alguém indiferente, ou um ignorante diante do real, Ele, assim como todos nós, também sabe o que a realidade é, por isso que a desafia. O sentido da política parte daquilo que não é, e é bom, para aquilo que é, e que não é, não é eficaz. Todos nós sabemos o que é o melhor. Se não sabemos, ao menos percebemos que repetir a mesma fórmula, e recusar a utopia, e portanto recusar real melhora. Ignorar uma ideia, ou opinião tão contrária à realidade existente é ignorar uma propositura, ou até mesmo alternativa de mudança. Salvemos a política, assumamos seu caráter de arte como bem Platão identificou há milênios, paremos de "celebrar a estupidez humana" como alertou Renato Russo. Vamos recomeçar, fazer da Política sempre a promessa da perfeição.

Atenciosamente,

Ângelo Felipe Castro Varela

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

INCONGRUÊNCIAS NO JULGAMENTO DO MENSALÃO

O julgamento do mensalão está prestes a terminar, possivelmente com a condenação dos réus mais importantes. Seria bom e salutar, se não deixasse nas pessoas uma boa dose de insegurança jurídica. É o julgamento do "ouvi dizer", do plausível, da presunção de culpa. E quem diz tudo isso é um dos jornalistas mais respeitados do país, Paulo Moreira Leite, da insuspeita revista Época. Seu artigo é o que segue. Trata da condenação de José Genoíno, ao qual eu, e acredito que nem ele, não morremos de amor. Mas a questão não é essa. É muito maior. Vale a pena ler atentamente


O lugar de Genoino

Nossos crocodilos ficaram sentimentais. Em toda parte vejo lágrimas que acompanham os votos que condenam José Genoino.
Na imprensa, em conversas com amigos, ouço o comentário, em tom de solidariedade. Parece consciência pesada, em alguns casos.
Não estamos diante de um melodrama mas de uma tragédia.
Genoino está sendo condenado num julgamento marcado por incongruências, denuncias incompletas e presunções de culpa que começam a incomodar estudiosos e acadêmicos. Foi isso que  explicou Margarida Lacombe, professora de Direito da UFRJ, em comentário na Globo News. Sem perder suavidade na voz,  a professora  falou sobre necessidade de provas contundentes quando se pretende privar a liberdade de uma pessoa. Não falou de casos concretos, não criticou. Fez o melhor: informou.  Lembrou como esse ponto – a liberdade – é importante.
Vamos começar.
O STF que está condenando Genoino absolveu Fernando Collor com o argumento de “falta de provas.”
É o mesmo STF que, em tempos muito mais recentes, impediu que o país apurasse, investigasse e punisse a tortura ocorrida no regime militar.
Então ficamos assim. José Genoino, vítima da tortura que o STF impediu que fosse apurada, será condenado por corrupção, ao contrário de Fernando Collor.
Parece o Samba do Crioulo Doido do Stanislaw Ponte Preta. É. Mas não é o texto. E a “realidade brasileira”, como se dizia no tempo em que a polícia política perseguia militantes como Genoino.
Não há provas materiais contra Genoino e tudo que se pode alegar contra ele é menos consistente do que se poderia alegar contra Collor. Mas as provas da  tortura são abundantes. Estão nos arquivos do Brasil Nunca Mais e em outros trabalhos. Foram arrancadas na dor, no sofrimento, na porrada, no sangue e, algumas vezes, na morte. Em plena ditadura, 1918 vítimas da tortura deixaram registros dessa violência nos arquivos da Justiça Militar.  Nenhuma foi apurada e, se depender da decisão do STF, nunca será.
Collor foi beneficiado porque  provas muito contundentes  contra ele foram anuladas. Considerou-se, na época,  que a privacidade do tesoureiro PC Farias havia sido violada quando a Polícia Federal quebrou o sigilo de um computador que servia ao esquema. Essa decisão – em nome da privacidade — salvou Collor.
Você pode dizer que os tempos eram outros e que agora não se aceita mais tanta impunidade. Aceita-se. Basta lembrar que, na mesma época, o mensalão do PSDB-MG virou fumaça na Justiça Comum. E quando Márcio Thomaz Bastos tentou mudar o julgamento do mensalão federal, alegou-se que era no STF que os crimes graves são punidos.
Vamos continuar.
Genoino está sendo condenado  porque “não é plausível” que não soubesse do esquema. “Plausível”, informa o Houaiss,  é sinônimo de aceitável, razoável. Olha o tamanho da subjetividade, da incerteza.
Isso porque ele assinou o pedido de empréstimo de R$ 3,5 milhões para o Banco Rural e por dez vezes refez o pedido.  Não é plausível imaginar que um presidente do PT fizesse tudo isso sem saber de nada, acreditam três ministros do Supremo.
Mas fatos que são líquidos e certos não comoveram a acusação com a mesma clareza.
O empresário Daniel Dantas deu R$ 3,5 milhões para amolecer Delúbio Soares e Marcos Valério e cair nas graças do esquema.  Não foram R$ 3,5 milhões subjetivos mas inteiramente objetivos.
Um pouco mais tarde, seu braço direito Carla Cicco assinou um contrato de R$ 50 milhões com as agências de Marcos Valério para transformar a turma do PT em geléia. Chegaram tarde. Depois de pagar a primeira prestação, a casa caiu e eles suspenderam o pagamento.
Como não gosto de pré-julgar, não acho que Daniel Dantas seja culpado por antecipação. Não acho mesmo. Vai ver que estava tudo lá, bonitinho. Também podia ser ajuda para o Fome Zero rsrsrsrsrs
Ou quem sabe fosse tudo para Valubio.
Mas não teria sido melhor que ele fosse ouvido no tribunal, para mostrar sua inocência?
Não teria sido uma forma de mostrar que a Justiça é cega?
Mas ela não foi.
O esquema privado do mensalão, informa a CPMI, chegou a R$ 200 milhões. Quantos empresários foram lá, dar explicações? Nenhum.
Alguém acha plausível, aceitável, razoável, que fossem inocentados por antecipação?
Não há nada “plausível” que se possa fazer com R$ 200 milhões?
Só a Telemig, que pertencia ao grupo Opportunity, de Daniel Dantas, entregou mais dinheiro às agências de Valério do que o Visanet, que jogou o petista Henrique Pizzolato na vala dos condenados logo nos primeiros dias.
O que é plausível, neste caso?
Nós sabemos – e ninguém duvida disso – que Genoino fazia política o tempo inteiro. Fez isso a vida toda, com tamanha inquietação que,  numa fase andou pela guerrilha do Araguaia e, em outra, ficou tão moderado que parecia que ia preencher ficha de ingresso no PSDB.
Chegou a liderar um partido revolucionário à esquerda do PC do B e depois integrou as correntes mais à direita do PT.
Então vamos lá. É plausível imaginar que Genoino tenha ido atrás de recursos de campanha? Sim. É plausível e até natural. Basta deixar de ser hipócrita para compreender. Política se faz com quadros, imprensa, propaganda, funcionários. Isso custa dinheiro.
Isso fez dele um dirigente que subornava  adversários para convencê-los a mudar de lado, como quer a acusação? Não.
Eu não acho plausível, nem aceitável nem razoável. Duvido inteiramente, aliás.
E se eu tiver errado, quero que me provem – de forma clara, contundente. Sem essas suposições, sem um quebra-cabeças que joga com a liberdade humana.
Sem fogueira de tantas vaidades.
Não chore por nós Genoino.
Alegou-se que a tortura não poderia ser apurada para preservar a transicão democrática.
A democracia avançou, as conquistas foram imensas. Mas os perseguidos, no fundo, bem no fundo, são os mesmos.
Não é um melodrama. É uma tragédia.

GLOBO INVERTE PRINCÍPIO BÁSICO DO DIREITO

Do Brasil 247:


Pilar do direito penal, a expressão latina “in dubio pro reo” é o princípio que assegura, em todas as constituições democráticas, a “presunção de inocência”. Ou seja: se determinado juiz tem dúvidas sobre a culpabilidade de determinado réu, deve absolvê-lo.
Na sessão de ontem, Ricardo Lewandowski disse que as provas apresentadas por Joaquim Barbosa e Roberto Gurgel contra José Dirceu não o convenceram. Direito seu. E foi justamente a sua dúvida que garantiu o primeiro voto a favor do ex-ministro da Casa Civil. Rosa Weber e Luiz Fux, ao contrário, aceitaram os argumentos da acusação. Por isso mesmo, o placar até agora está 3 a 1 pela condenação.
Julgar os votos de cada juiz é algo que vai além da capacidade da maioria dos mortais. Cada um deles julgou de acordo com o que leu nos autos e com a sua própria consciência. O erro, no entanto, está na manchete desta sexta-feira do Globo, em sua notícia de maior destaque sobre o mensalão. “Pode ser, mas absolvo”, informa o jornal, resumindo o pensamento de Lewandowski, quando o correto seria “Pode ser e, por isso mesmo, absolvo”.
Se há dúvida, a única hipótese, prevista em lei, é a absolvição. Ocorre que, no Brasil, com um julgamento sendo insuflado pelas torcidas organizadas nos meios de comunicação, o princípio “in dubio pro reo” foi convertido em “in dubio pau no réu”. E também no juiz.
"Votei de acordo com minha consciência e com meu compromisso com a Constituição, não tenho por que estar constrangido", disse Lewandowski à coluna Painel, da Folha de S.Paulo, sobre as intervenções dos colegas durante seu voto. "Enunciei meu voto com base em preceitos legais, doutrinários e jurisprudenciais".
José Dirceu será condenado e Lewandowski também.