quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O SILÊNCIO DOS "TRANQUILOS"


Não sei se é de Edmund Burke, ou de Albert Einstein aquela frase de que para o mal vencer, basta que os bons se calem. Essa frase é análoga àquela outra, cujo autor também desconheço, que diz: "O que incomoda não é o barulho dos lobos, mas o silêncio dos cordeiros". Pois bem, mas ainda pode ser pior.
Todos sabem que sou zuadento, que gosto de me expressar. De vez em quando alguém me diz que posto coisas demais, que falo demais, que me incomodo demais. Conheci recentemente uma outra frase, de ninguém menos que o padre Vieira, dizendo mais ou menos, que o ato de responder, portanto de falar, é uma necessidade. Para ele isso é tão certo, que Deus teria dado ao incapaz de responder (o mudo), também a incapacidade de receber perguntas (surdez). Admiro quem não sente necessidade de falar. Admiro mesmo, gente caladona, que responde às estupidezes do mundo com "risos de filósofo". Admiro e invejo. Não sou assim, e por mais que eu tente, creio que nunca serei.
Pois bem, parece que vivemos num mundo tão pequeno, que os bons não só se calam, como desfazem dos que falam. Quem fala passa por fanático, por sem noção, recebe aconselhamento pra não falar mais, pra não se incomodar e não dar importância. Com certeza, seria mais confortável mesmo, não nego. O silêncio é cômodo. Como dizia Aristóteles: "Não quer ser criticado, não faça nada".
E eis que chegamos a um dilema sério, que todo ser humano deveria fazer: Devemos fazer o certo, ou fazer o que é cômodo? Eu tenho "defeitos" na minha formação e personalidade, tipo não saber me omitir diante do errado. Não consigo deixar o errado sem resposta, sem contraponto. Tenho medo que o erro se torne tão natural quanto a respiração, uma tese sem antítese. E por que eu tenho medo disso? Por que me incomodar? Não sei, me incomoda. Outro "defeito" que Deus me deu. Deve ser por isso que arranjei tantas desavenças na vida. Valeu a pena? Não sei. Respondo com outra pergunta: Vale a pena se calar pra ser legal com todo mundo? O que será que vale a pena mesmo? Difícil. A saída é buscar um princípio. A tranquilidade vale mais que a verdade, a justiça, a consciência de fazer o certo? Isso não traz mais intranquilidade? Vale a pena calar diante do erro? Quais são seus princípios? Estar tranquilo, e pecar por omissão? Ou falar, e viver de conflito?
PS: muita gente já morreu por falar, mas muitos mais por ficar calado.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A PARTIDARIZAÇÃO DA CORRUPÇÃO E A LUTA QUE NÃO SE TRAVA

                “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba”; desse modo a poetisa Elisa Lucinda expõe o que seria um pensamento aparentemente enraizado na mentalidade tupiniquim: a de que a corrupção e a malandragem são condicionantes naturais do comportamento do brasileiro. Não que ela concorde com a tese. No poema em questão, intitulado Só de Sacanagem, ela lança um contraponto esperançoso, e com um excelente tom sarcástico, a essa ideia tosca. “Sei que não dá pra mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar pra mudar o final”! A corrupção é inegavelmente uma chaga, mas essa realidade não é natural nem condicionante. Ela exige de nós um comportamento compromissado com a transformação, amparado nos exemplos e nos conselhos dos “justos que nos precederam/Devolva o lápis do coleguinha, esse apontador não é seu minha filha”. Enfim, “não é justo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.”
                Dito isso a título de introdução poética, repito que a corrupção é uma chaga nacional. A maior talvez. Ponto! Essa é a premissa primeira. No entanto, a análise desse tema nos defronta com duas condições, isso se quisermos ser honestos, e não simplesmente repetidores pedantes de discursos fáceis. A primeira delas já foi preliminarizada: apesar de ser uma chaga grande do país, a corrupção não nos é inerente, natural. Ou seja, nem todo brasileiro, ouso dizer (contra a tosca corrente) nem a maioria, é safado. Aceitar isso, além da clara confissão de culpa implícita, é de uma viralatice sem tamanho. Quando se parte para o campo da política, que é onde o tema se torna excelência, as boas intenções misturadas com o baixo nível analítico, provoca imensos desserviços. É fácil dizer que todo político é ladrão, embora se vote sempre num deles em todas as eleições, o que é estranho ao paroxismo. Aliás, conheço muito pouca gente que não vota em ninguém. Mas a quem serve isso? Ora, serve exatamente ao político safado, que usa esse subterfúgio para justificar seus atos. “Eu fiz, mas todo mundo faz”! Com muita razão dizia meu pai, na sua prosaica sabedoria: “Quem diz que nenhum político presta, sempre vota nos piores.” Uma análise superficial mostra a considerável carga de verdade que isso contém. Eu, por exemplo, já vi de tudo nesse aspecto. Já vi gente condenada pela Justiça por mau uso do dinheiro público; familiares de gente envolvida em gestões notoriamente corruptas; gente que subiu em palanque e pôs adesivo no carro em troca de cachê, todos pregando moralidade, e envolvendo tudo que é agente público na mesma latrina. Os errados são os outros afinal! E o pior, é que o discurso é tão comum, que chega a nos envolver a todos, “todos fazem”, “todos são assim”, “o brasileiro é assim mesmo”, “a política é suja mesmo”, etc. etc.. Ser malandro então se torna, quando não algo que “faço pois todos fazem”, algo com respingos de resistência, como quem defende sonegadores como vítimas dos altos impostos (juro que já ouvi coisa desse tipo). Enfim, a premissa de que todo político é safado é: 1) Tão rasa quanto outras do mesmo naipe, como “todo pastor é ladrão”, “todo padre é pedófilo”, “todo alemão é nazista”, “todo judeu é mesquinho e ganancioso”, ou seja, julga-se o todo pelo comportamento de alguns, e não se aprofunda no assunto, preferindo o preconceito à análise honesta; 2) Um desserviço, pois ao nivelar por baixo, acaba por justificar exatamente o político desonesto, que “rouba porque todo mundo rouba”. O mal da corrupção, que todos dizem combater, apenas se fortalece com esse tipo de bravatas.

                O segundo problema, que é o ponto importante desse texto, é a partidarização da corrupção, que se configura na indignação seletiva com a safadeza de alguns, e em contrapartida um silêncio cínico com a safadeza de outros. Muitas vezes, pior que isso! O que ocorre é que, quando nos centramos num grupo específico pra falar de corrupção (muitas vezes a própria pessoa é corrupta, fortemente hipotética ou mesmo comprovadamente), não estamos lutando contra a corrupção coisa nenhuma. Usamos o mote “corrupção” para atender a nossos interesses eleitoreiros ou ideológicos, e assim estamos sendo corruptos também, pois que nosso discurso está corrompido. E como existem pessoas assim! Quando é pra atacar, levantam a bandeira da moralidade, explanando todos os males que a corrupção causa ao país; quando a coisa é com seu grupo, ou consigo mesmo, é intriga, é recalque, precisa provar, etc. etc.. Pois é gente, muitas vezes quem fala da safadeza alheia, tem o telhado mais frágil que algodão doce! A corrupção, pra ser bem repetitivo, um mal, talvez o maior, do país, é assunto sério demais pra ser abordado com desfaçatez. A desfaçatez dos hipócritas, dos pedantes, dos generalistas, daqueles que são exigentes com os outros, mas extremamente indulgentes consigo mesmo. Precisamos enfrentar esse mau, e com seletividade e demagogia não se faz isso! É preciso superar esses discursos, e principalmente, avaliar nossa própria conduta, pra que sejamos um espelho de nossas palavras. Só assim essa luta se vence! Não adiantam frases feitas, ou revoltinhas pseudo-moralistas. Não é possível mais viver num lugar em que todos dizem ser contra a corrupção, mas dizem que todos os homens públicos são desonestos, sendo que são eles que os elegem. Não se pode também aceitar que só seja errada a safadeza de um grupo, e a de outro esquecida, relativizada, ou muitas vezes justificada ou defendida com unhas e dentes. Há algo errado aí! Desse jeito, campanhas eleitorais terão um mote permanente, mesas de bar continuarão cheias de gente que querem “mudar o mundo”, e as redes sociais ficarão apinhadas de discursos de moralização seletiva. Mas a corrupção, o problema de verdade, vai continuar!

quarta-feira, 5 de março de 2014

MENTECAPTOS DO CONTRA

Um dos tipos mais mentecaptos que existe é o "rebelde sem causa". Aquele sujeito que é contra tudo. Não que não se deva ser contra as coisas! Há muita coisa contra as quais chega a ser um dever lutarmos. Mas toda luta, pressupõe antes de um "contra", um "a favor". É exatamente aí que mora o problema do tipo que falo. O RSC é simplesmente contra (contra Deus, contra o governo, contra o mundo), totalmente desprovido de critérios positivos. Ele não apresenta alternativas. Ele nem sequer cogita a existência delas. Até porque, se a bendita alternativa vingar, ele vai ser contra ela também. Ser "do contra" é sua razão de viver!

Digo isso porque muitos desses pobres mentecaptos (de quem devemos ter pena, antes de tudo), na ânsia por meterem o pau no PT e no governo Dilma, estão abraçando tudo que tragam esse discurso, sem ler atenciosamente as entrelinhas (não ler é típico desses coitados), e entrando em enormes roubadas.

Há uma marcha programada para o dia 22 de março, que se diz um repeteco cinquentenário da famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade (por sinal, nada divina e nada libertária). Eis que basta esse evento se colocar, em letras garrafais, como "O POVO CONTRA DILMA", para literalmente excitar os ânimos dessa gente. "Se é do contra, tô dentro!" Esqueceram de prestar atenção (devem ser contra prestar atenção também) que uma das propostas do movimento, como há cinquenta anos, é "intervenção militar". Como esse povo é tão "do contra", que devem inclusive ser contra estudar e se informar, não atinam a perceber que a expressão é um eufemismo boçal para golpe militar, ou seja, a derrubada de uma ordem estabelecida legalmente pela soberania popular (pra quem não sabe popular vem do latim "populus" - povo, que no grego se diz "demos", daí vindo o nome democracia - "poder do povo").

Faço portanto um alerta ao RSC. Como sei que ele vai ser contra um governo ilegítimo, instalado pela força das armas, seria melhor ele pensar nisso antes e ter mais atenção e critério para estabelecer uma hierarquia de coisas que devemos lutar contra. Não se pode ser contra tudo ao mesmo tempo! Não se pode ser contra a mentira e a verdade! Devemos ser a favor de algo. E algo que possamos segurar por muito tempo. Pode-se ser contra Dilma, aliás deve-se, se se achar oportuno! Mas ser contra a democracia, aí o preço é muito alto!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

OU NOS PREPARAMOS, OU SEREMOS ENGOLIDOS PELA IMBECILIDADE E PELA MÁ FÉ

Pessoal, veja só como funciona a cabeça do Reinaldo Azevedo. As pessoas pensam que eu critico ele por ele ser de direita simplesmente. Mentira! Tem cara que é de direita e é gente boa, é "hômi". O problema é que ele usa sempre de artifícios retóricos, sofistas, pra defender seu ponto de vista. É um atentado à inteligência, até a de uma mula. É desonestidade e vigarice intelectual pura. Veja o que ele colocou em seu último artigo, e depois eu comento:

"É certo que a Constituição assegura o direito à manifestação e à livre associação. Não menos certo é que a mesma Carta garante a liberdade de expressão. São fundamentos da democracia gravados em nossa Lei Maior, e, pois, não cabem especulações sobre a sua pertinência. O direito que está impresso em letra fria é o conceito, é o valor abstrato que nos orienta. A sua efetividade só é provada a quente, na vida. Assim, cumpre indagar: o direito à livre manifestação e associação é de tal sorte absoluto que deve ser garantido mesmo quando uma minoria se impõe a ponto de impedir que a maioria igualmente se manifeste? É plausível que, em nome dessa liberdade, um grupo de 100, 200, 500 ou mil pessoas impeça o direito de ir e vir de milhares, pondo, adicionalmente, a sua segurança em risco?"http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/os-rolezinhos-e-a-justica-ou-para-que-existem-os-juizes-ou-se-o-direito-de-se-manifestar-e-absoluto-entao-o-manifestante-e-o-novo-tirano-ou-ainda-dois-juizes-do-rio/

Parece bonito né? Claro, conciso, verdadeiro! Mas como se diz hoje em dia, "só que não"! A clareza e concisão do texto esbarra e cai diante dos fatos e da própria lógica do autor. Como assim? É mentiroso e desonesto, tendencia qualquer incauto ao erro, o que é asqueroso, pois feito com má-fé por alguém que não é nenhum pouco inocente. Ele induz a pensar que qualquer aglomeração de pessoas é um atentado à segurança dos outros, como se o ato de aglomerar não fosse um ato legítimo e democrático. É a lógica torta da mente reinaldiana. Ou melhor, é um sofisma rasteiro de alguém que prostitui os fatos, usa uma lógica quando quer defender, e trai a mesma quando quer atacar. É uma "verdade" pragmática, conveniente. E uma verdade relativa, dessa forma, sempre é uma mentira absoluta.

Mas como diz Abraham Lincoln, não se pode enganar todo mundo o tempo todo. No caso de Reinaldo, cai perfeitamente. O único problema é que como ele é um cara que escreve a rodo, cerca de uns dez textos por dia, e como geralmente as pessoas não se prestam a ler sobre o que discordam, muito do que ele escreve cai no esquecimento, ou simplesmente é aplaudido irracionalmente. Graças a Deus, nenhuma dessas duas coisas são problemas para mim. Minha memória permite me lembrar de coisas para muitos esquecidas, e meu estômago permite ler determinados lixos sem embrulhar! Pois bem, ao ver esse tipo de colocação de Tio Rei, como posso esquecer de sua "democracia sem povo"; ou do seu "golpe democrático" em Honduras; ou do seu "cadê o homem branco Democrata" na última eleição estadunidense! São "flashes" de uma mente que odeia a democracia, o contraditório, o debate (publique algum comentário de que ele discorde no seu blog, e verá do que eu estou falando). Sempre usará o reducionismo, a criminalização, para fazer valer na marra seu ponto de vista!

O mais engraçado de tudo é que, como eu já disse, ele trai sua própria lógica, se é que ela existe. Não sei que outro nome dar. Mas, como assim? A lógica dele nesse momento é a seguinte: manifestar-se é um direito, mas não é um direito absoluto, pois o direito de uma minoria não pode alijar, ou se sobrepor ao de uma maioria. Ou seja, o direito dos "rolezeiros" não é maior que o dos "homens comuns, de bem". Até aí, com um certo esforço podemos concordar com ele. Mas substitua "manifestação", por "liberdade de imprensa" ou "liberdade de mercado", diga que também nesses dois casos o direito não é absoluto, que uma minoria não pode sobrepujar uma maioria! Diga, e verá o que acontece! A lógica num instante se inverte, tal qual uma roupa virada do avesso, mas ainda servindo pra vestir. Reinaldo vai esquecer, e seus leitores idem, de todo o bonito discurso de "minoria x maioria", de que "se o direito de se manisfestar é absoluto, o manifestante é o novo tirano", e por aí vai. Aqui a lógica não se aplica! E viva a falta de leitores inteligentes e perspicazes e sobretudo de boa memória. A única coisa absoluta é a palavra do Reinaldo, acima do bem e do mal dos conceitos políticos. Uma verdadeira escatologia, um verdadeiro "fin de histoire" epistemológico. Chegamos ao lugar comum de tudo: Reinaldo Azevedo e sua mente troncha dão a última palavra, e quem discordar é censurado, chamado de petralha, e jogado na geena, onde arderá para sempre. Algo mais desprezível intelectualmente não pode haver.

Por fim, colocações como essas, mentindo do jeito que ele faz, são atitudes que podem minar lentamente a democracia. Se um exército de incautos seguem cega e acriticamente alguém que já defendeu um golpe de Estado, e que mente assim, a coisa não está nada boa. Daqui a pouco acontece um novo golpe militar, e um sujeito desses vai dizer que é algo legítimo, sustentado no aplauso de seus sequazes, e no "silêncio dos cordeiros". Um homem que se aproveita de fatos esporádicos, isolados, descontextualizados, para criminalizar atitudes legítimas e democráticas, não vale nada! Sua palavra é um desserviço, e precisa ser contrapontualizada. Não pela força, mas pelo uso da voz. Não há melhor arma contra a mentira que a inteligência, que a razão. E como disse Raul Seixas: "A voz é mais forte que a bomba!" Usemos portanto nossa voz, e cada vez mais, para eliminar esse tipo de pensamento, que seduz hoje em dia a muitos brasileiros, e fazer valer os verdadeiros valores democráticos!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

ENTRE DEMOCRACIA E FASCISMO

Por Paulo Moreira Leite


O movimento de caráter semi-insurrecional que vemos no país de hoje exige uma reflexão cuidadosa.

Começou como uma luta justíssima pela redução de tarifas de ônibus.
Auxiliada pela postura irredutível das autoridades e pela brutalidade policial, esta mobilização transformou-se numa luta nacional pela democracia.
 
Se a redução da tarifa foi vitoriosa, a defesa dos direitos democráticos também deu resultado na medida em que o Estado deixou de empregar a violência como método preferencial para impor suas políticas.
 
Mas hoje a mobilização assumiu outra fisionomia.
 
Seu traços anti-democráticos acentuados. Até o MPL, entidade que havia organizado o movimento em sua primeira fase, decidiu retirar-se das mobilizações.
 
Os manifestantes combatem os partidos políticos, que são a forma mais democrática de participação no Estado.
 
Seu argumento é típico do fascismo: “povo unido não precisa de partido.”
 
Claro que precisa. Não há saída na sociedade moderna. Às vezes, uma pessoa escolhe entrar num partido. Outras vezes, é massa de manobra e nem sabe.  
 
A criação de partidos políticos é a forma democrática de uma sociedade debater e negociar interesses diferentes, que não nascem na política, como se tenta acreditar, mas da própria vida social, das classes sociais.
 
Em São Paulo, em Brasília, os protestos exibiram faixa com caráter golpista. 
 
“Chega de políticos incompetentes!!! Intervenção Militar Já!!!”
 
No mesmo movimento, militantes de esquerda, com bandeiras de esquerda, foram forçados a deixar uma passeata na porrada. Uma bandeira do movimento negro foi rasgada.
 
A baderna cumpre um papel essencial na conjuntura atual. Reforça a sensação de desordem, cria o ambiente favorável a medidas de força – tão convenientes  para quem tem precisa desgastar de qualquer maneira um bloco político que ocupa o Planalto após três eleições consecutivas.  
 
A baderna é uma provocação que procura emparedar o governo Dilma criando uma situação sem saída.
 
Se reprime, é autoritária. Se cruza os braços, é omissa.
 
Outro efeito é embaralhar a situação política do país, confundir quem fala pela maioria e quem apenas pretende representá-la.
 
É bom recordar que a maioria escolhe seu governo pelo voto, o critério mais democrático que existe.
 
Nenhum brasileiro chegou perto do paraíso e todos nós temos reivindicações legítimas que precisam de uma resposta.
 
Também sabemos das mazelas de um sistema político criado para defender a ordem vigente – e que, com muita dificuldade, através de brechas sempre estreitas, criou benefícios para a maioria.
 
Olhando para a maioria dos brasileiros, aqueles que foram excluídos da história ao longo de séculos, cabe perguntar, porém: os políticos atuais são incompetentes para quem, mascarados?
 
Para a empregada doméstica, que emancipou-se das últimas heranças da escravidão?
 
Para 40 milhões que recebem o bolsa-família?
 
Para os milhões de jovens pobres que nunca puderam entrar numa faculdade? Para os negros? Quem vive do mínimo?
 
Ou para quem vai ao mercado de trabalho e encontra um índice de desemprego invejado no resto do mundo?
 
Mascarados que arrebentam vidraças, incendeiam ônibus e invadem edifícios trabalham contra a ordem democrática, onde os partidos são legítimos, as pessoas têm direitos iguais  – e  o poder, que emana do povo, não se resolve na arruaça, pelo sangue, mas pelo voto.
 
É óbvio que a baderna, em sua fase atual, não quer objetivos claros nem reivindicações específicas. Não quer negociações, não quer o funcionamento da democracia. Quer travá-la.  
 
Enquanto não avançar pela violência direta, fará o possível para criar pedidos difusos, que não sejam possíveis de avaliar nem responder.
 
O objetivo é manter a raiva, a febre, a multidão eletrizada.
 
É delírio enxergar o que está acontecendo no país como um conflito entre direita e esquerda. É uma luta muito maior, como aprenderam todas as pessoas que vivenciaram e estudaram as trevas de uma ditadura.
 
A questão colocada é a defesa da democracia, este regime insubstituível para a criação do bem-estar social e do progresso econômico.
 
O conflito é este: democracia ou fascismo. Não há alternativa no horizonte.
 
Quem não perceber isso está condenado a travar a luta errada, com métodos errados e chegar a um desfecho errado. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

SOBRE SOFISMAS MORAIS

Quando se diz que a democracia defende os direitos humanos está se dizendo exatamente isso: defende os direitos HUMANOS! Do rico e do pobre, do preto e do branco, da mulher e do homem, de qualquer religião, de qualquer partido, de qualquer ideologia, de qualquer caráter(!), de qualquer índole(!). Defende-se o humano na totalidade, com suas qualidades, mas também com suas imperfeições, suas luzes e suas sombras, pra usar uma analogia de um livro de Padre João Olímpio. Por melhor que seja, um homem não é um anjo. Por pior que seja, ele também não é um demônio. São humanos, simplesmente! Não há super, nem tampouco, meio humano!
Digo isso porque o cinismo mascarado de moralidade (falsa, sem dúvida) insiste em jogar na cara de quem, como eu, defende melhor tratamento aos presos, e condena excessos como pena de morte e redução da maioridade penal, a pecha de indiferentes, de inversores de valores, de cegos ideológicos. São pechas que não aceito, e que, aliás, ninguém deve aceitar! Isso não passa de uma tentativa tacanha de tentar ganhar o debate na marra, desmoralizando uma posição sem mostrar argumentos claros. É o mesmo que chamar quem é contra as cotas de racista, ou quem não quer ir pra cama com um gay de homofóbico. Jogam-se pechas, moraliza-se enviesadamente o debate, e tenta-se tornar qualquer argumento do outro morto na essência, sem valor desde o nascedouro.
Pois bem! Dizer que quem defende os direitos dos "coitadinhos sociais" (assim dessa forma irônica) é, pela lógica, indiferente ao sofrimentos das vítimas de crimes, é o mesmo que dizer que quem é contra o aborto, mesmo em caso de estupro, é indiferente ao sofrimento da mulher estuprada. Isso é falácia, é falso moralismo. É típico de quem não sabe argumentar! Fico me perguntando: será que essa gente não tem nada melhor pra dizer? Será que o que eles defendem é tão pobre de justificativas que só sobrou a eles isso? Jogar sofismas morais na cara de quem pensa diferente? Acho que o nível desse debate tão relevante pode ser melhorado, desde que as pessoas não se arroguem os detentores monopolistas da moral, e desde que usem mais o cérebro, e menos o fígado!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ESQUERDA: UM DELÍRIO DA DIREITA


De autoria de Ângelo Felipe Castro Varela:          

           A esquerda inventou a corrupção, o politicamente correto, as modinhas intelectuais detestáveis, a estupidez política, o absolutismo opinativo, o distúrbio estatóide, a intolerância e a perseguição políticas, a censura. A esquerda é a representação do mal, da lavagem cerebral, da esterilidade mental e epistemológica, da febre ideológica (só ela é ideológica), da degenerescência da raça humana.
            A esquerda é terrorista, e só ela e culpada pelos absurdos do igualitarismo social irrealista e pela teimosa em não perceber que pobreza e uma questão de ser e de escolha, condição sorteada pela loteria da vida. Assim como os criminosos, bandidos, facínoras e malfeitores, a esquerda é a hecatombe de ideias, a impossibilidade da verdade. A esquerda é o que há de pior! A esquerda, assim como a direita, nem existe. É como essa coisa chamada sociedade, onde todo mundo obedece a regras, códigos, normas, convicções e princípios. Isso não existe. Isso é desejo e delírio metafísico, pois o que vale é a liberdade. Não há argumento maior que o indivíduo, já pronto, já acabado, já dado a priori por Deus, ou por uma explosão cósmica. A esquerda é quem vem mentindo, desde as cavernas, com essa estória de sociedade e de politicamente correto.
           A verdade está com dois, três que, ainda bem, abandonaram essa doença mental. A verdade esta com o status quo, com o arrivismo, com a minha vontade de cometer violência (ops! digo de me defender), de orar e pedir a Deus, meu conforto e meu dinheiro, minha carreira e minha jornada de trabalho flexível, meu direito e meu bom senso de obter vantagens com o quer que seja. Meu desejo de parecer sábio quando se é incoerente, de ser politicamente incorreto, de cortejar um chefe político, de praticar clientelismos e depois dizer que sou o maior defensor do que público e democrático. Pois só preciso aparentar. Aparentar é a verdade e a lei da vida. Mudo de opinião, pois nunca fui aquilo que sempre dizia. Pois andei convencendo e tento convencer o mundo inteiro. Mas a mim mesmo, nuca me convenci!

quarta-feira, 8 de maio de 2013

IMPARCIALIDADE E HISTÓRIA


                Uma questão essencial que permeia o pensamento de todo e qualquer historiador, assim como de todo profissional que trabalha com ciências humanas (sociólogo, antropólogo, cientista político, economista, geógrafo, jurista) é a questão da imparcialidade. Como se posicionar diante de algo que nos diz respeito diretamente e do qual fazemos parte: o ser humano, a sociedade humana, a cultura humana. Aprende-se cedo nos bancos das faculdades, que ser imparcial é impossível para um cientista da humanidade. Como assim? Para responder corretamente a essa pergunta, é necessário explicar o que significa ser imparcial, o que significa ter imparcialidade.
                Para os positivistas do final do século XIX, como Leopold von Ranke, ser imparcial seria fundamental para o historiador, pois pra ele, “ao adotar a imparcialidade, o historiador poderia chegar a uma verdade histórica objetiva.” (http://diegoricoy.blogspot.com.br/2010/03/funcao-do-historiador-papel-do.html). Ou seja, pra ele, a História seria como uma colônia de bactéria num laboratório. Aos poucos foi se percebendo que essa “verdade” histórica é um mito. Para Georges Duby, por exemplo, “contrapondo-se com os ideais positivistas, a objetividade na História é um mito já que em qualquer narrativa histórica há uma subjetividade de quem a escreve, sendo qualquer tipo de documento “contaminado” de juízo de valores e influências de seu tempo. Já na escolha de certo objeto de estudo, o historiador emite juízo de valor, não ficando imparcial diante a seleção de seu tema de pesquisa.” (IDEM) Ou seja, a pretensão de imparcialidade já nasce condenada pela parcialidade das escolhas humanas. Um historiador, quando escreve ou dá aulas, um sociólogo, ou mesmo um juiz, não podem, ou melhor, não conseguem, se dar o luxo de serem neutros, imparciais. Isso é bobagem, é ilusão.
                Quer dizer que toda produção historiográfica, sociológica, jurídica, etc., não merece crédito? Quer dizer que todo historiador é um panfletário? Não é bem assim! É claro que existem aqueles que, por tão apaixonados, negam a factualidade de determinados assuntos. Isso não é só ser panfletário. Eu chamo isso de prostituir a História. Um professor, por mais católico que seja, não pode negar a Noite de São Bartolomeu, por exemplo; por mais marxista, não pode negar os crimes de Stalin ou de Mao Tsé-tung; por mais liberal, não pode negar que a Crise de 1929 foi contornada pelo Estado. O historiador panfletário, cafetão da História, mente, inventa uma historinha só sua, usando-a a seu bel prazer no intuito de ludibriar as mentes dos leigos ou dos ignorantes.
                Dito isso, conclui-se que o historiador não pode se dissociar de seu meio, de sua experiência individual, de suas ideias políticas, de suas visões de mundo, e mesmo assim fazer um trabalho científico, um trabalho comprometido com a verossimilhança dos fatos. Até porque, achar que um homem pode ser neutro sobre a história, sobre a humanidade, é um extremo paradoxo. O homem não é um robô, não é uma pedra. É um animal político, como diziam os gregos. Tem uma história de vida, que se insere na História de sua comunidade. É um erro achar que um historiador deva ser um homem isento de juízos de valor. Mesmo com a justificativa de fazer com que os outros busquem sua própria criticidade. Até porque ser crítico, significa tomar posição. Não se pode querer que os outros façam isso, se o próprio historiador não o faz. O historiador não pode abster os outros de sua visão, de sua opinião. Que não é a única? Com certeza! Que pode ser equivocada? Com certeza! Daí a necessidade de interferir, de não deixar passar. Dizer: “Ah, eu deixo que os outros tirem suas próprias conclusões, pensem livremente, sem minha intervenção” é se abster de ser historiador! Quem assim o faz, deveria procurar outra profissão. Se minha função é deixar os outros à própria sorte intelectual, que serventia tenho eu? Da mesma forma que é errado transformar a História num panfleto, escolhendo somente o que nos interessa, é errado também posarmos, nós historiadores, como árbitros neutros. Se assim fosse, atingiríamos um estágio que nenhum ser humano, nem o mais frio e objetivo dos juízes jamais alcançou: o estágio da neutralidade absoluta, o laissez-faire intelectual, onde mestres, livros, a política, as discussões, os debates, são desnecessários. Cada um pense e faça o que quer. O historiador não se intrometa. Só narre, e pronto! É impossível!
                Tão impossível, que qualquer pessoa que tente fazê-lo não passará da “quarta página”. O que nos faz chegar à conclusão que além de ser um equívoco filosófico, epistemológico, esse discurso da neutralidade também é um sofisma cretino. Uma desculpa barata! Todos esses pretensos imparciais, pretensos neutros, são cheios de ideias e opiniões, e as defendem convicta e fervorosamente como qualquer um de nós. O que eles abominam não é a parcialidade, mas a convicção alheia em defender uma opinião contrária à sua. É igual àquele cara que diz que direita e esquerda não existem mais, simplesmente porque tem medo de se assumir de direita, e quer passar uma imagem de não-alinhado. O pretenso neutro sofre, na verdade, de uma covardia extrema, um medo de assumir o que realmente pensa. Assumir algo, abraçar algo, impõe a quem o faz responsabilidades, pesos, que esse tipo de gente não quer aceitar, preferindo viver num mundinho próprio, inumano. Pois nada mais humano que a convicção, que a parcialidade, que a paixão. O segredo é saber dosar isso! Não ser escravo de uma doutrina, de uma corrente, de uma ideologia, não significa, de forma nenhuma, que você não siga uma. Quem tem a pretensão da neutralidade, sempre esconde algo que, um segundo ou outro (e quando eu falo de segundo, é segundo mesmo), escapa nas entrelinhas!        

sexta-feira, 29 de março de 2013

CQC EXPERIMENTA DO PRÓPRIO VENENO E NÃO GOSTA: CENSURA VÍDEO DE JORNALISTA

Do blog Com Texto Livre

O vídeo censurado no You Tube: clique na imagem para vê-lo no Yahoo Vídeos 
O jornalista Jorge Antonio Antonio Barros, dono do blog Repórter de Crime, encontrou-se no aeroporto de São Paulo com um dos CQCs, Rafael Cortez (ambos viajariam para o Rio), e aplicou com ele a mesma técnica que os humoristas usam com as suas vítimas.
Ligou uma câmera amadora e começou a fazer perguntas embaraçosas a ele e à equipe que o acompanhava.
O troço terminou com um dos integrantes pondo a mão na lente da câmera do repórter para impedi-lo de filmar – e Rafael Cortez, posteriormente, foi à Justiça para retirar o vídeo do YouTube.
Portanto, um CQCéte, experimentou do próprio veneno e não gostou. CQC – “Custe o que Custar”, como vocês sabem é um programa de origem argentina, no Brasil produzido pela TV Bandeirantes.
Eu sustento um debate para tentar entender se programas tipo CQC podem ser considerados jornalísticos. Eu tendo a achar que não, mas gosto de ouvir argumentos que me contrariam.
Nós gostamos do esculacho aos políticos, como uma espécie de vingança contra eles. Mas o que sobra disso, do ponto de vista do interesse público?
Nós nos divertimos do mesmo modo que se divertem os apreciadores de programas policiais quando os “apresentadores” e “repórteres” “enfrentam” os “bandidos” passando-lhes lição de moral ou humilhando-os.
Quem falou algo certeiro sobre isso foi minha filha de 16 anos. Ela disse que, nesse sentido, o programa “Pânico” é “mais digno”, pois não traveste suas algazarras e brincadeiras de “jornalismo”. O objetivo deles, declarado, é divertir por meio da esculhambação com tudo e com todos. Ponto.
Na lista da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) iniciei um debate sobre o personagem “João Buracão”, que é usado pelo jornal Extra (Rio de Janeiro) para apontar onde existem buracos na rua. O personagem ganhou tanta importância que foi parar no programa Fantástico e nas novelas na Globo (se bem que não é de se admirar, já que a autorreferência da Globo é quase doentia).
Houve quem considerasse isso aceitável em jornalismo (a maioria) e quem defendeu de modo contrário. Vou consultar os pares se posso divulgar trechos da conversa que mantivemos na lista; se não houver oposição, qualquer dia o farei – ou poderei fazê-lo sem divulgar os nomes dos que intervieram no debate. (Isto é, se ainda encontrar os e-mails.)
Mas voltemos ao caso do CQC Rafael Cortez, nas palavras do jornalista Jorge Antonio Barros, segundo ele expõe em seu blog (trechos):
«Depois de 28 anos de jornalismo, completados mês passado, estou enfrentando o pior adversário da imprensa e da cidadania: a censura imposta pelo poder econômico. A empresa Rafinha Productions entrou com um pedido para remoção no YouTube do vídeo exclusivo que fiz, em tom de irreverência, com o apresentador Rafael Cortez, um dos repórteres do CQC. O vídeo foi removido ontem do site do Google devido “à reivindicação de direitos autorais da Rafinha Productions”.
Em primeiro lugar não há qualquer violação de direitos autorais. O vídeo foi idealizado, produzido e feito por mim mesmo, entre o check in no saguão do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e o desembarque de um voo da Webjet, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, na tarde de terça-feira passada. Depois foi editado em meu computador pessoal e publicado na madrugada seguinte no canal “reporterdecrime” no YouTube.
No vídeo de cinco minutos, que em apenas algumas horas chegou a mais de 1.500 exibições no YouTube, entrevistei Rafael Cortez sobre amenidades até arrancar dele a declaração absurda de que a mídia é a culpada da violência no Rio. O vídeo tem ainda um dos integrantes da produção falando em tom ameaçador contra o Repórter de Crime.
Enfim, com apenas uma simples brincadeira de vídeo caseiro, descobri como é tênue o limite entre a fama e o mau humor. Só não imaginava que comportamento assim partisse de profissionais que têm na sua principal atividade aquilo que parecem detestar na intimidade: lidar com gente.»

PS: quem quiser ver o vídeo, que não se encontra mais no Youtube, é só visitar o seguinte sítio:http://contextolivre.blogspot.com.br/2013/03/cqc-experimenta-do-proprio-veneno-e-nao.html