terça-feira, 4 de abril de 2017

"BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO" À LUZ DO EVANGELHO

“Amados, nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor. Ao contrário: ‘Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’. Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem.” (Rm 12, 19-21)

                Estava assistindo à missa de Quarta-Feira de Cinzas, e o jovem padre escolhe como tema da homilia a misericórdia, e como exercê-la no período da Quaresma que se iniciava. A reflexão seguia normalmente, quando a certa altura ele diz mais ou menos o seguinte: “A pessoa que afirma BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO não está consciente do plano de Deus.” Nesse momento tive a impressão de ter visto um rapaz à minha frente balançar a cabeça desaprovando o que fora dito. Impressão ou não, aquilo me despertou para algo bem real: a quantidade considerável de pessoas que frequentam Igrejas, cantam hinos e são sempre cheios de palavras bíblicas de amor e misericórdia, e que defendem esse tipo de ideia, qual seja, a de que a solução para a violência generalizada seja um Estado violento e policialesco, que contra “vagabundos” (uma palavra cujo significado sempre depende de uma série de circunstâncias) atire primeiro e pergunte depois.
                Devo dizer que não sou um pacifista, embora admire em alto grau quem o seja. Não há nada mais nobre pra se defender que a paz. Acho a violência um mal necessário, como já coloquei naquele que foi o primeiro artigo de meu blog (http://blog1do1jorge1.blogspot.com.br/2011/12/guerrilha-violencia-como-um-mal.html), desde que orientada contra algo injusto, e que tenha um fim necessariamente bom. Isso é cristão inclusive: alguns santos católicos, como Joana D’Arc, eram guerreiros. Mas é importante reiterar: mesmo necessária, a violência é um mal. Para um bom cristão, ela deve ser evitada ao máximo. “A justiça se defende com a razão, e não com as armas. Não se perde nada com a paz, e pode-se perder tudo com a guerra.” Não são palavras minhas, mas do Papa João XXIII.
                Dito isso, é de causar espanto ver tanto cristão, não aqueles de boca, mas aqueles que o senso comum chamaria de “praticante”, seduzir-se tanto por ideias, e pessoas, violentas. A ideia de BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO não é evangélica. Isso é tão evidente, que nos aumenta o espanto. Ou Jesus não foi morto como bandido? O que dizer de São Dimas, São Paulo e São Longino (chamado comumente de Lunguinho, o dos “três pulinhos”)? O primeiro era um ladrão, e foi crucificado com Cristo; o segundo, um assassino e perseguidor de cristãos (colaborou na morte de Santo Estêvão); o terceiro, um dos carrascos de Jesus, mais especificamente o que lhe enfiou a lança quando já morto (Longino quer dizer “lança”). Onde ficaria a lógica de um cristão espantoso desses diante de exemplos de homens que “fizeram o diabo”, e se converteram? E que não só se salvaram, mas viraram santos? Exemplos como esses, que deveriam ser conhecidos por cristãos “praticantes” deveriam, no mínimo, acender o alerta: epa, vamos com calma!
                É costume do pessoal do BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO dizer que quem não pensa como eles defende bandidos. Esse é um argumento falso e asqueroso. Quando vem de um cristão “praticante”, mais ainda. Nunca vi ninguém dizer que bandido não deve ser punido. O que se defende, quando se pensa com o cérebro e não com o fígado, é que a punição deve vir como manda a lei, e respeitando coisas sagradas, como devido processo e direito de defesa. Todas as vezes que essas coisas não são respeitadas, todo mundo perde. Na Bíblia, até Sodoma e Gomorra mereceram a defesa de Abraão, como se dissesse: “Vamos com calma, e se tiver lá dez justos?” Um cristão que se preze reza, canta, participa de grupos, se exibe com camisetas e postagens, se revolta com a injustiça, mas sobretudo defende o que é justo com serenidade e razoabilidade. Não com ódio espumando pela boca. “Felizes os que promovem a paz, pois serão chamados Filhos de Deus”. (Mt 5, 9) Quem disse foi Nosso Senhor, não eu. Tá na Bíblia, não é invenção minha. Infelizmente, cristãos que deviam saber e propagar isso, não o fazem. Afinal foi uma jornalista dita “defensora dos valores cristãos” quem disse: “Adote um bandido”. Mal sabe a pobre de espírito que há quem adote mesmo. Que existem pastorais e grupos religiosos que cuidam do bem estar de presos, no espírito do Evangelho. E como ela, existem piores. O político xodó dos “defensores da família cristã”, o famigerado Bolsonaro (que Deus lhe dê a graça da conversão verdadeira), defende tortura, ditaduras militares, justiçamento e armamentismo. “Devolve a espada ao seu lugar, pois todos os que tomarem a espada perecerão pela espada.” (Mt 26, 52) De novo foi Jesus quem disse. Chegou a hora dos cristãos decidirem: seguir o Evangelho, ou os profetas do ódio. Não se pode seguir a ambos.

                Sugiro, portanto, aos ditos cristãos que propagam esse tipo de pensamento que revejam seus conceitos, ou que pelo menos parem de usar a religião cristã como justificativa para isso. Se dizer cristão, citar a Bíblia, é bonitinho. Mas o ataque ao que é injusto deve ser feito com calma. Cuidado com os falsos profetas! Com esse discurso, eles não vêm de Deus, pelo menos não dAquele dos Evangelhos. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

A GREVE E OS "VAGABUNDOS"

As cabeças levantadas
Máquinas paradas
Dia de pescar
Pois quem toca o trem pra frente
Também de repente
Pode o trem parar
(Chico Buarque)

                É início de primavera em Chicago, mais precisamente 1º de maio. As flores brotam por conta das chuvas de abril (“April showers bring May flowers”). O ano é o longínquo 1886. Milhares de “vagabundos” saem às ruas por não aceitarem mais o regime de trabalho de 13 horas. Queriam reduzir para oito. Bando de preguiçosos! Suas indolentes reivindicações ainda incluíam absurdos como receber salários nas férias e dias de descanso, e a continuar recebendo mesmo depois de trabalhar, até a morte. Bando de vagabundos! A polícia, como não podia ser diferente, para defender a lei e a ordem que fazem o orgulho da democracia americana, terra de oportunidades e empreendedorismo, parte pra cima e mata dezenas de “vagabundos”. Tivessem trabalhando, isso não aconteceria. Mas o efeito não foi o esperado. No dia 5, outra baderna. Mas não adiantou. Os líderes foram presos e condenados à morte. Viva o progresso, e a ordem! Mas não foi só isso. Em 1889 um Congresso de comunistas e anarquistas (mais “vagabundos”), com certeza citado nos famigerados “livros do MEC”, estabeleceu a data mundial da vagabundagem, 1º de maio: dia do trabalho em que ninguém trabalha. Ainda mais no Brasil, cheio de “vagabundos remunerados”, no dizer de um deputado gaúcho, com certeza alguém que nem dormir dorme.
                De lá pra cá, muita coisa mudou. Ninguém mais é condenado à morte, e todas as legislações do mundo civilizado garantem o direito à greve, direito basilar de reivindicação pacífica e democrática. Como “vagabundo” que sou, já participei de algumas, inclusive como estudante. Mas algumas cabeças continuam enterradas, na verdade chumbadas no solo, daquele distante século XIX. O mundo caminha pra frente, mas essa gente insiste em puxar de volta. Com a justificativa de que a expectativa de vida aumentou (plausível até certo ponto), o governo quer obrigar o cidadão a receber aposentadoria integral apenas após 49 anos de serviço. Uma vida adulta inteira, praticamente. Alguém como eu, que começou a trabalhar aos 29, teria de esperar até os 78. Um “vagabundo”, ainda que “remunerado”, não aguenta tanto. Só nos resta isso: aproveitar que fazer greve hoje é legal e descontar na sociedade. Afinal, é isso mesmo que irão dizer os jornais. Do alto da consciência sacrifical do seu trabalho árduo e voluntário em prol do país, eles podem apontar o dedo na cara de nós, “vagabundos”. Eu sei que é absurdo querermos envelhecer em paz, e com remuneração, querermos melhorias nas condições de trabalho e salariais, querermos respeito pelo que fazemos, mas fazer o quê? Isso não justifica. Vejam os deputados, que mesmo não tendo o suficiente, trabalham diuturnamente pelo bem do país. Perguntam antes o que podem fazer, não o que podem receber. Ser grevista deveria nos envergonhar, mas “vagabundo” não tem consciência.

                Tanto assim, que ainda queremos tolher o direito heroico de alguns de furarem greve, direito sagrado de “ir e vir”, garantido pelo artigo 5º, inciso XV da Constituição de 88, a mesma que, ironicamente, garante o direito de greve como um direito coletivo (artigo 9º). Mas esses são, com certeza, subterfúgios para amparar a “vagabundagem”, que por isso mesmo, domina o país. O cara não é obrigado a participar de reuniões de sindicato, embora se beneficie dos ganhos que uma greve possa ter. Mas com certeza, teve essa graça por seu trabalho, não pela baderna de “vagabundos”. Ele pode até dizer que é proibido de participar das deliberações sindicais, o que, conhecendo como se conhece a “vagabundagem”, tem tudo pra ser verdade. Portanto, vale aqui isso como uma lição, principalmente pros mais jovens, os que foram atingidos em cheio pela “iluminação” que só um Bolsonaro ou um Luiz Carlos Prates, ou um Olavo (“cu da sua mãe”) podem oferecer, em meio ao esquerdismo “vagabundo” reinante: esculhambemos os “vagabundos” que fazem greve, pois são eles que atrasam o Brasil. Não sejam como eles. Trabalhem pensando somente no bem do país, não reclamem do que ganham, não prejudiquem os outros, e por fim, saibam que terão a honra de um dia entrar no mercado de trabalho, de onde nenhum “vagabundo” os tirará, a não ser morto. Viva o trabalho! Morte aos “vagabundos”! E sem feriado desta vez, odiamos feriado e dia santo. É coisa de... “vagabundo”!  

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O SILÊNCIO DOS "TRANQUILOS"


Não sei se é de Edmund Burke, ou de Albert Einstein aquela frase de que para o mal vencer, basta que os bons se calem. Essa frase é análoga àquela outra, cujo autor também desconheço, que diz: "O que incomoda não é o barulho dos lobos, mas o silêncio dos cordeiros". Pois bem, mas ainda pode ser pior.
Todos sabem que sou zuadento, que gosto de me expressar. De vez em quando alguém me diz que posto coisas demais, que falo demais, que me incomodo demais. Conheci recentemente uma outra frase, de ninguém menos que o padre Vieira, dizendo mais ou menos, que o ato de responder, portanto de falar, é uma necessidade. Para ele isso é tão certo, que Deus teria dado ao incapaz de responder (o mudo), também a incapacidade de receber perguntas (surdez). Admiro quem não sente necessidade de falar. Admiro mesmo, gente caladona, que responde às estupidezes do mundo com "risos de filósofo". Admiro e invejo. Não sou assim, e por mais que eu tente, creio que nunca serei.
Pois bem, parece que vivemos num mundo tão pequeno, que os bons não só se calam, como desfazem dos que falam. Quem fala passa por fanático, por sem noção, recebe aconselhamento pra não falar mais, pra não se incomodar e não dar importância. Com certeza, seria mais confortável mesmo, não nego. O silêncio é cômodo. Como dizia Aristóteles: "Não quer ser criticado, não faça nada".
E eis que chegamos a um dilema sério, que todo ser humano deveria fazer: Devemos fazer o certo, ou fazer o que é cômodo? Eu tenho "defeitos" na minha formação e personalidade, tipo não saber me omitir diante do errado. Não consigo deixar o errado sem resposta, sem contraponto. Tenho medo que o erro se torne tão natural quanto a respiração, uma tese sem antítese. E por que eu tenho medo disso? Por que me incomodar? Não sei, me incomoda. Outro "defeito" que Deus me deu. Deve ser por isso que arranjei tantas desavenças na vida. Valeu a pena? Não sei. Respondo com outra pergunta: Vale a pena se calar pra ser legal com todo mundo? O que será que vale a pena mesmo? Difícil. A saída é buscar um princípio. A tranquilidade vale mais que a verdade, a justiça, a consciência de fazer o certo? Isso não traz mais intranquilidade? Vale a pena calar diante do erro? Quais são seus princípios? Estar tranquilo, e pecar por omissão? Ou falar, e viver de conflito?
PS: muita gente já morreu por falar, mas muitos mais por ficar calado.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A PARTIDARIZAÇÃO DA CORRUPÇÃO E A LUTA QUE NÃO SE TRAVA

                “Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba”; desse modo a poetisa Elisa Lucinda expõe o que seria um pensamento aparentemente enraizado na mentalidade tupiniquim: a de que a corrupção e a malandragem são condicionantes naturais do comportamento do brasileiro. Não que ela concorde com a tese. No poema em questão, intitulado Só de Sacanagem, ela lança um contraponto esperançoso, e com um excelente tom sarcástico, a essa ideia tosca. “Sei que não dá pra mudar o começo, mas se a gente quiser, vai dar pra mudar o final”! A corrupção é inegavelmente uma chaga, mas essa realidade não é natural nem condicionante. Ela exige de nós um comportamento compromissado com a transformação, amparado nos exemplos e nos conselhos dos “justos que nos precederam/Devolva o lápis do coleguinha, esse apontador não é seu minha filha”. Enfim, “não é justo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.”
                Dito isso a título de introdução poética, repito que a corrupção é uma chaga nacional. A maior talvez. Ponto! Essa é a premissa primeira. No entanto, a análise desse tema nos defronta com duas condições, isso se quisermos ser honestos, e não simplesmente repetidores pedantes de discursos fáceis. A primeira delas já foi preliminarizada: apesar de ser uma chaga grande do país, a corrupção não nos é inerente, natural. Ou seja, nem todo brasileiro, ouso dizer (contra a tosca corrente) nem a maioria, é safado. Aceitar isso, além da clara confissão de culpa implícita, é de uma viralatice sem tamanho. Quando se parte para o campo da política, que é onde o tema se torna excelência, as boas intenções misturadas com o baixo nível analítico, provoca imensos desserviços. É fácil dizer que todo político é ladrão, embora se vote sempre num deles em todas as eleições, o que é estranho ao paroxismo. Aliás, conheço muito pouca gente que não vota em ninguém. Mas a quem serve isso? Ora, serve exatamente ao político safado, que usa esse subterfúgio para justificar seus atos. “Eu fiz, mas todo mundo faz”! Com muita razão dizia meu pai, na sua prosaica sabedoria: “Quem diz que nenhum político presta, sempre vota nos piores.” Uma análise superficial mostra a considerável carga de verdade que isso contém. Eu, por exemplo, já vi de tudo nesse aspecto. Já vi gente condenada pela Justiça por mau uso do dinheiro público; familiares de gente envolvida em gestões notoriamente corruptas; gente que subiu em palanque e pôs adesivo no carro em troca de cachê, todos pregando moralidade, e envolvendo tudo que é agente público na mesma latrina. Os errados são os outros afinal! E o pior, é que o discurso é tão comum, que chega a nos envolver a todos, “todos fazem”, “todos são assim”, “o brasileiro é assim mesmo”, “a política é suja mesmo”, etc. etc.. Ser malandro então se torna, quando não algo que “faço pois todos fazem”, algo com respingos de resistência, como quem defende sonegadores como vítimas dos altos impostos (juro que já ouvi coisa desse tipo). Enfim, a premissa de que todo político é safado é: 1) Tão rasa quanto outras do mesmo naipe, como “todo pastor é ladrão”, “todo padre é pedófilo”, “todo alemão é nazista”, “todo judeu é mesquinho e ganancioso”, ou seja, julga-se o todo pelo comportamento de alguns, e não se aprofunda no assunto, preferindo o preconceito à análise honesta; 2) Um desserviço, pois ao nivelar por baixo, acaba por justificar exatamente o político desonesto, que “rouba porque todo mundo rouba”. O mal da corrupção, que todos dizem combater, apenas se fortalece com esse tipo de bravatas.

                O segundo problema, que é o ponto importante desse texto, é a partidarização da corrupção, que se configura na indignação seletiva com a safadeza de alguns, e em contrapartida um silêncio cínico com a safadeza de outros. Muitas vezes, pior que isso! O que ocorre é que, quando nos centramos num grupo específico pra falar de corrupção (muitas vezes a própria pessoa é corrupta, fortemente hipotética ou mesmo comprovadamente), não estamos lutando contra a corrupção coisa nenhuma. Usamos o mote “corrupção” para atender a nossos interesses eleitoreiros ou ideológicos, e assim estamos sendo corruptos também, pois que nosso discurso está corrompido. E como existem pessoas assim! Quando é pra atacar, levantam a bandeira da moralidade, explanando todos os males que a corrupção causa ao país; quando a coisa é com seu grupo, ou consigo mesmo, é intriga, é recalque, precisa provar, etc. etc.. Pois é gente, muitas vezes quem fala da safadeza alheia, tem o telhado mais frágil que algodão doce! A corrupção, pra ser bem repetitivo, um mal, talvez o maior, do país, é assunto sério demais pra ser abordado com desfaçatez. A desfaçatez dos hipócritas, dos pedantes, dos generalistas, daqueles que são exigentes com os outros, mas extremamente indulgentes consigo mesmo. Precisamos enfrentar esse mau, e com seletividade e demagogia não se faz isso! É preciso superar esses discursos, e principalmente, avaliar nossa própria conduta, pra que sejamos um espelho de nossas palavras. Só assim essa luta se vence! Não adiantam frases feitas, ou revoltinhas pseudo-moralistas. Não é possível mais viver num lugar em que todos dizem ser contra a corrupção, mas dizem que todos os homens públicos são desonestos, sendo que são eles que os elegem. Não se pode também aceitar que só seja errada a safadeza de um grupo, e a de outro esquecida, relativizada, ou muitas vezes justificada ou defendida com unhas e dentes. Há algo errado aí! Desse jeito, campanhas eleitorais terão um mote permanente, mesas de bar continuarão cheias de gente que querem “mudar o mundo”, e as redes sociais ficarão apinhadas de discursos de moralização seletiva. Mas a corrupção, o problema de verdade, vai continuar!

quarta-feira, 5 de março de 2014

MENTECAPTOS DO CONTRA

Um dos tipos mais mentecaptos que existe é o "rebelde sem causa". Aquele sujeito que é contra tudo. Não que não se deva ser contra as coisas! Há muita coisa contra as quais chega a ser um dever lutarmos. Mas toda luta, pressupõe antes de um "contra", um "a favor". É exatamente aí que mora o problema do tipo que falo. O RSC é simplesmente contra (contra Deus, contra o governo, contra o mundo), totalmente desprovido de critérios positivos. Ele não apresenta alternativas. Ele nem sequer cogita a existência delas. Até porque, se a bendita alternativa vingar, ele vai ser contra ela também. Ser "do contra" é sua razão de viver!

Digo isso porque muitos desses pobres mentecaptos (de quem devemos ter pena, antes de tudo), na ânsia por meterem o pau no PT e no governo Dilma, estão abraçando tudo que tragam esse discurso, sem ler atenciosamente as entrelinhas (não ler é típico desses coitados), e entrando em enormes roubadas.

Há uma marcha programada para o dia 22 de março, que se diz um repeteco cinquentenário da famigerada Marcha da Família com Deus pela Liberdade (por sinal, nada divina e nada libertária). Eis que basta esse evento se colocar, em letras garrafais, como "O POVO CONTRA DILMA", para literalmente excitar os ânimos dessa gente. "Se é do contra, tô dentro!" Esqueceram de prestar atenção (devem ser contra prestar atenção também) que uma das propostas do movimento, como há cinquenta anos, é "intervenção militar". Como esse povo é tão "do contra", que devem inclusive ser contra estudar e se informar, não atinam a perceber que a expressão é um eufemismo boçal para golpe militar, ou seja, a derrubada de uma ordem estabelecida legalmente pela soberania popular (pra quem não sabe popular vem do latim "populus" - povo, que no grego se diz "demos", daí vindo o nome democracia - "poder do povo").

Faço portanto um alerta ao RSC. Como sei que ele vai ser contra um governo ilegítimo, instalado pela força das armas, seria melhor ele pensar nisso antes e ter mais atenção e critério para estabelecer uma hierarquia de coisas que devemos lutar contra. Não se pode ser contra tudo ao mesmo tempo! Não se pode ser contra a mentira e a verdade! Devemos ser a favor de algo. E algo que possamos segurar por muito tempo. Pode-se ser contra Dilma, aliás deve-se, se se achar oportuno! Mas ser contra a democracia, aí o preço é muito alto!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

OU NOS PREPARAMOS, OU SEREMOS ENGOLIDOS PELA IMBECILIDADE E PELA MÁ FÉ

Pessoal, veja só como funciona a cabeça do Reinaldo Azevedo. As pessoas pensam que eu critico ele por ele ser de direita simplesmente. Mentira! Tem cara que é de direita e é gente boa, é "hômi". O problema é que ele usa sempre de artifícios retóricos, sofistas, pra defender seu ponto de vista. É um atentado à inteligência, até a de uma mula. É desonestidade e vigarice intelectual pura. Veja o que ele colocou em seu último artigo, e depois eu comento:

"É certo que a Constituição assegura o direito à manifestação e à livre associação. Não menos certo é que a mesma Carta garante a liberdade de expressão. São fundamentos da democracia gravados em nossa Lei Maior, e, pois, não cabem especulações sobre a sua pertinência. O direito que está impresso em letra fria é o conceito, é o valor abstrato que nos orienta. A sua efetividade só é provada a quente, na vida. Assim, cumpre indagar: o direito à livre manifestação e associação é de tal sorte absoluto que deve ser garantido mesmo quando uma minoria se impõe a ponto de impedir que a maioria igualmente se manifeste? É plausível que, em nome dessa liberdade, um grupo de 100, 200, 500 ou mil pessoas impeça o direito de ir e vir de milhares, pondo, adicionalmente, a sua segurança em risco?"http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/os-rolezinhos-e-a-justica-ou-para-que-existem-os-juizes-ou-se-o-direito-de-se-manifestar-e-absoluto-entao-o-manifestante-e-o-novo-tirano-ou-ainda-dois-juizes-do-rio/

Parece bonito né? Claro, conciso, verdadeiro! Mas como se diz hoje em dia, "só que não"! A clareza e concisão do texto esbarra e cai diante dos fatos e da própria lógica do autor. Como assim? É mentiroso e desonesto, tendencia qualquer incauto ao erro, o que é asqueroso, pois feito com má-fé por alguém que não é nenhum pouco inocente. Ele induz a pensar que qualquer aglomeração de pessoas é um atentado à segurança dos outros, como se o ato de aglomerar não fosse um ato legítimo e democrático. É a lógica torta da mente reinaldiana. Ou melhor, é um sofisma rasteiro de alguém que prostitui os fatos, usa uma lógica quando quer defender, e trai a mesma quando quer atacar. É uma "verdade" pragmática, conveniente. E uma verdade relativa, dessa forma, sempre é uma mentira absoluta.

Mas como diz Abraham Lincoln, não se pode enganar todo mundo o tempo todo. No caso de Reinaldo, cai perfeitamente. O único problema é que como ele é um cara que escreve a rodo, cerca de uns dez textos por dia, e como geralmente as pessoas não se prestam a ler sobre o que discordam, muito do que ele escreve cai no esquecimento, ou simplesmente é aplaudido irracionalmente. Graças a Deus, nenhuma dessas duas coisas são problemas para mim. Minha memória permite me lembrar de coisas para muitos esquecidas, e meu estômago permite ler determinados lixos sem embrulhar! Pois bem, ao ver esse tipo de colocação de Tio Rei, como posso esquecer de sua "democracia sem povo"; ou do seu "golpe democrático" em Honduras; ou do seu "cadê o homem branco Democrata" na última eleição estadunidense! São "flashes" de uma mente que odeia a democracia, o contraditório, o debate (publique algum comentário de que ele discorde no seu blog, e verá do que eu estou falando). Sempre usará o reducionismo, a criminalização, para fazer valer na marra seu ponto de vista!

O mais engraçado de tudo é que, como eu já disse, ele trai sua própria lógica, se é que ela existe. Não sei que outro nome dar. Mas, como assim? A lógica dele nesse momento é a seguinte: manifestar-se é um direito, mas não é um direito absoluto, pois o direito de uma minoria não pode alijar, ou se sobrepor ao de uma maioria. Ou seja, o direito dos "rolezeiros" não é maior que o dos "homens comuns, de bem". Até aí, com um certo esforço podemos concordar com ele. Mas substitua "manifestação", por "liberdade de imprensa" ou "liberdade de mercado", diga que também nesses dois casos o direito não é absoluto, que uma minoria não pode sobrepujar uma maioria! Diga, e verá o que acontece! A lógica num instante se inverte, tal qual uma roupa virada do avesso, mas ainda servindo pra vestir. Reinaldo vai esquecer, e seus leitores idem, de todo o bonito discurso de "minoria x maioria", de que "se o direito de se manisfestar é absoluto, o manifestante é o novo tirano", e por aí vai. Aqui a lógica não se aplica! E viva a falta de leitores inteligentes e perspicazes e sobretudo de boa memória. A única coisa absoluta é a palavra do Reinaldo, acima do bem e do mal dos conceitos políticos. Uma verdadeira escatologia, um verdadeiro "fin de histoire" epistemológico. Chegamos ao lugar comum de tudo: Reinaldo Azevedo e sua mente troncha dão a última palavra, e quem discordar é censurado, chamado de petralha, e jogado na geena, onde arderá para sempre. Algo mais desprezível intelectualmente não pode haver.

Por fim, colocações como essas, mentindo do jeito que ele faz, são atitudes que podem minar lentamente a democracia. Se um exército de incautos seguem cega e acriticamente alguém que já defendeu um golpe de Estado, e que mente assim, a coisa não está nada boa. Daqui a pouco acontece um novo golpe militar, e um sujeito desses vai dizer que é algo legítimo, sustentado no aplauso de seus sequazes, e no "silêncio dos cordeiros". Um homem que se aproveita de fatos esporádicos, isolados, descontextualizados, para criminalizar atitudes legítimas e democráticas, não vale nada! Sua palavra é um desserviço, e precisa ser contrapontualizada. Não pela força, mas pelo uso da voz. Não há melhor arma contra a mentira que a inteligência, que a razão. E como disse Raul Seixas: "A voz é mais forte que a bomba!" Usemos portanto nossa voz, e cada vez mais, para eliminar esse tipo de pensamento, que seduz hoje em dia a muitos brasileiros, e fazer valer os verdadeiros valores democráticos!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

ENTRE DEMOCRACIA E FASCISMO

Por Paulo Moreira Leite


O movimento de caráter semi-insurrecional que vemos no país de hoje exige uma reflexão cuidadosa.

Começou como uma luta justíssima pela redução de tarifas de ônibus.
Auxiliada pela postura irredutível das autoridades e pela brutalidade policial, esta mobilização transformou-se numa luta nacional pela democracia.
 
Se a redução da tarifa foi vitoriosa, a defesa dos direitos democráticos também deu resultado na medida em que o Estado deixou de empregar a violência como método preferencial para impor suas políticas.
 
Mas hoje a mobilização assumiu outra fisionomia.
 
Seu traços anti-democráticos acentuados. Até o MPL, entidade que havia organizado o movimento em sua primeira fase, decidiu retirar-se das mobilizações.
 
Os manifestantes combatem os partidos políticos, que são a forma mais democrática de participação no Estado.
 
Seu argumento é típico do fascismo: “povo unido não precisa de partido.”
 
Claro que precisa. Não há saída na sociedade moderna. Às vezes, uma pessoa escolhe entrar num partido. Outras vezes, é massa de manobra e nem sabe.  
 
A criação de partidos políticos é a forma democrática de uma sociedade debater e negociar interesses diferentes, que não nascem na política, como se tenta acreditar, mas da própria vida social, das classes sociais.
 
Em São Paulo, em Brasília, os protestos exibiram faixa com caráter golpista. 
 
“Chega de políticos incompetentes!!! Intervenção Militar Já!!!”
 
No mesmo movimento, militantes de esquerda, com bandeiras de esquerda, foram forçados a deixar uma passeata na porrada. Uma bandeira do movimento negro foi rasgada.
 
A baderna cumpre um papel essencial na conjuntura atual. Reforça a sensação de desordem, cria o ambiente favorável a medidas de força – tão convenientes  para quem tem precisa desgastar de qualquer maneira um bloco político que ocupa o Planalto após três eleições consecutivas.  
 
A baderna é uma provocação que procura emparedar o governo Dilma criando uma situação sem saída.
 
Se reprime, é autoritária. Se cruza os braços, é omissa.
 
Outro efeito é embaralhar a situação política do país, confundir quem fala pela maioria e quem apenas pretende representá-la.
 
É bom recordar que a maioria escolhe seu governo pelo voto, o critério mais democrático que existe.
 
Nenhum brasileiro chegou perto do paraíso e todos nós temos reivindicações legítimas que precisam de uma resposta.
 
Também sabemos das mazelas de um sistema político criado para defender a ordem vigente – e que, com muita dificuldade, através de brechas sempre estreitas, criou benefícios para a maioria.
 
Olhando para a maioria dos brasileiros, aqueles que foram excluídos da história ao longo de séculos, cabe perguntar, porém: os políticos atuais são incompetentes para quem, mascarados?
 
Para a empregada doméstica, que emancipou-se das últimas heranças da escravidão?
 
Para 40 milhões que recebem o bolsa-família?
 
Para os milhões de jovens pobres que nunca puderam entrar numa faculdade? Para os negros? Quem vive do mínimo?
 
Ou para quem vai ao mercado de trabalho e encontra um índice de desemprego invejado no resto do mundo?
 
Mascarados que arrebentam vidraças, incendeiam ônibus e invadem edifícios trabalham contra a ordem democrática, onde os partidos são legítimos, as pessoas têm direitos iguais  – e  o poder, que emana do povo, não se resolve na arruaça, pelo sangue, mas pelo voto.
 
É óbvio que a baderna, em sua fase atual, não quer objetivos claros nem reivindicações específicas. Não quer negociações, não quer o funcionamento da democracia. Quer travá-la.  
 
Enquanto não avançar pela violência direta, fará o possível para criar pedidos difusos, que não sejam possíveis de avaliar nem responder.
 
O objetivo é manter a raiva, a febre, a multidão eletrizada.
 
É delírio enxergar o que está acontecendo no país como um conflito entre direita e esquerda. É uma luta muito maior, como aprenderam todas as pessoas que vivenciaram e estudaram as trevas de uma ditadura.
 
A questão colocada é a defesa da democracia, este regime insubstituível para a criação do bem-estar social e do progresso econômico.
 
O conflito é este: democracia ou fascismo. Não há alternativa no horizonte.
 
Quem não perceber isso está condenado a travar a luta errada, com métodos errados e chegar a um desfecho errado. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

SOBRE SOFISMAS MORAIS

Quando se diz que a democracia defende os direitos humanos está se dizendo exatamente isso: defende os direitos HUMANOS! Do rico e do pobre, do preto e do branco, da mulher e do homem, de qualquer religião, de qualquer partido, de qualquer ideologia, de qualquer caráter(!), de qualquer índole(!). Defende-se o humano na totalidade, com suas qualidades, mas também com suas imperfeições, suas luzes e suas sombras, pra usar uma analogia de um livro de Padre João Olímpio. Por melhor que seja, um homem não é um anjo. Por pior que seja, ele também não é um demônio. São humanos, simplesmente! Não há super, nem tampouco, meio humano!
Digo isso porque o cinismo mascarado de moralidade (falsa, sem dúvida) insiste em jogar na cara de quem, como eu, defende melhor tratamento aos presos, e condena excessos como pena de morte e redução da maioridade penal, a pecha de indiferentes, de inversores de valores, de cegos ideológicos. São pechas que não aceito, e que, aliás, ninguém deve aceitar! Isso não passa de uma tentativa tacanha de tentar ganhar o debate na marra, desmoralizando uma posição sem mostrar argumentos claros. É o mesmo que chamar quem é contra as cotas de racista, ou quem não quer ir pra cama com um gay de homofóbico. Jogam-se pechas, moraliza-se enviesadamente o debate, e tenta-se tornar qualquer argumento do outro morto na essência, sem valor desde o nascedouro.
Pois bem! Dizer que quem defende os direitos dos "coitadinhos sociais" (assim dessa forma irônica) é, pela lógica, indiferente ao sofrimentos das vítimas de crimes, é o mesmo que dizer que quem é contra o aborto, mesmo em caso de estupro, é indiferente ao sofrimento da mulher estuprada. Isso é falácia, é falso moralismo. É típico de quem não sabe argumentar! Fico me perguntando: será que essa gente não tem nada melhor pra dizer? Será que o que eles defendem é tão pobre de justificativas que só sobrou a eles isso? Jogar sofismas morais na cara de quem pensa diferente? Acho que o nível desse debate tão relevante pode ser melhorado, desde que as pessoas não se arroguem os detentores monopolistas da moral, e desde que usem mais o cérebro, e menos o fígado!

quarta-feira, 22 de maio de 2013

ESQUERDA: UM DELÍRIO DA DIREITA


De autoria de Ângelo Felipe Castro Varela:          

           A esquerda inventou a corrupção, o politicamente correto, as modinhas intelectuais detestáveis, a estupidez política, o absolutismo opinativo, o distúrbio estatóide, a intolerância e a perseguição políticas, a censura. A esquerda é a representação do mal, da lavagem cerebral, da esterilidade mental e epistemológica, da febre ideológica (só ela é ideológica), da degenerescência da raça humana.
            A esquerda é terrorista, e só ela e culpada pelos absurdos do igualitarismo social irrealista e pela teimosa em não perceber que pobreza e uma questão de ser e de escolha, condição sorteada pela loteria da vida. Assim como os criminosos, bandidos, facínoras e malfeitores, a esquerda é a hecatombe de ideias, a impossibilidade da verdade. A esquerda é o que há de pior! A esquerda, assim como a direita, nem existe. É como essa coisa chamada sociedade, onde todo mundo obedece a regras, códigos, normas, convicções e princípios. Isso não existe. Isso é desejo e delírio metafísico, pois o que vale é a liberdade. Não há argumento maior que o indivíduo, já pronto, já acabado, já dado a priori por Deus, ou por uma explosão cósmica. A esquerda é quem vem mentindo, desde as cavernas, com essa estória de sociedade e de politicamente correto.
           A verdade está com dois, três que, ainda bem, abandonaram essa doença mental. A verdade esta com o status quo, com o arrivismo, com a minha vontade de cometer violência (ops! digo de me defender), de orar e pedir a Deus, meu conforto e meu dinheiro, minha carreira e minha jornada de trabalho flexível, meu direito e meu bom senso de obter vantagens com o quer que seja. Meu desejo de parecer sábio quando se é incoerente, de ser politicamente incorreto, de cortejar um chefe político, de praticar clientelismos e depois dizer que sou o maior defensor do que público e democrático. Pois só preciso aparentar. Aparentar é a verdade e a lei da vida. Mudo de opinião, pois nunca fui aquilo que sempre dizia. Pois andei convencendo e tento convencer o mundo inteiro. Mas a mim mesmo, nuca me convenci!